Saúde Mental dos Jogadores de Futebol
- Alunos UVA

- 1 de dez. de 2025
- 6 min de leitura
Pressão, fama e medo de falhar: atletas e especialistas revelam como o futebol profissional começa a lidar com o tabu da saúde mental nos gramados.
Por Kaio Fernandes e Giovanna Fraga
Durante décadas, a imagem do jogador de futebol foi associada à força, resistência e superação. Porém, longe dos holofotes e das mídias, muitos atletas enfrentam “batalhas” invisíveis contra ansiedade, depressão e estresse. Casos recentes como o de Vinícius Júnior, que sofreu várias vezes racismo no meio da partida de futebol, acaba causando afastamentos e desabafos públicos que reacendem o debate sobre a saúde mental no esporte mais popular do mundo. A questão já mobiliza clubes, psicólogos e federações, que tentam romper o silêncio e construir um ambiente mais humano dentro e fora de campo. Joshua, que tem apenas 18 anos e atleta da base do Flamengo, falou sobre a importância de ter um mental forte enquanto atleta de futebol.

A PRESSÃO QUE COMEÇA CEDO
Desde as categorias de base, os jovens atletas aprendem que o erro não é permitido. A competição por uma vaga no time profissional, as cobranças familiares e o medo de “não dar certo” geram um cenário de tensão constante. Mesmo antes de assinar contrato, muitos garotos convivem com expectativas elevadas. Joshua também falou sobre o preparo psicológico, que às vezes ser até mais importante que o preparo físico.
E a busca pelo equilíbrio emocional e pelo fortalecimento mental, tem ganhado cada vez mais espaço no futebol moderno. Muito além do condicionamento físico, os atletas lidam diariamente com pressão, cobranças, desempenho e frustrações que, se não forem bem administradas, podem comprometer a carreira e a vida pessoal. Atuando no MSV 1919 Neuruppin, da Alemanha, o jogador Filipe Félix destaca a importância desse suporte dentro do esporte e reforça o impacto transformador do acompanhamento profissional.
“ Fundamental para aqueles que por algum motivo perderam a confiança, e ali esses profissionais te ajudam se reerguer novamente te dão a confiança e te fazem encarar aquilo que te aflige de fato, tem todo acompanhamento e suporte necessário, te dão a confiança que você precisa para abrir o seu coração e tirar o peso que tem no seu fardo.”

O PESO DA FAMA E O MEDO DE NÃO CONSEGUIR
O crescimento ao profissionalismo traz reconhecimento, mas também uma exposição intensa. A rotina de treinos, partidas, viagens, cobrança da torcida, mídia e redes sociais transforma o sucesso em uma fonte de estresse. O jornalista esportivo Igor Dorilêo, atualmente trabalhando na Band, aponta se a relação das redes sociais com o atleta influencia na questão de ansiedade,cobrança pré/pós, ou durante o jogo e na trajetória profissional.
Flávio Amendola, jornalista esportivo da TV Bandeirantes, também falou sobre o tema e compartilhou sua experiência como jornalista acompanhando os atletas pelo Brasil e pelo mundo.
“Pelo que vemos dentro dos jogos a questão psicológica afeta diretamente no rendimento do atleta. Quando um jogador que reconhecidamente costuma ir muito bem erra passes simples e movimentações, por exemplo, um sinal de alerta é ligado. Obviamente que todo o contexto precisa ser avaliado, como questões extracampo também, mas na minha avaliação é fundamental um acompanhamento psicológico disponibilizado pelo clube para tratar dessas questões.”

O medo de fraquejar diante dos olhos de milhões pode levar a uma constante hiper-vigilância emocional. A Psicóloga esportiva Rosa Costa, coordenadora do departamento de psicologia do Barcelona Rio, falou sobre as principais queixas dos atletas.

QUANDO O CORPO FALA: SINAIS E CONSEQUÊNCIAS
Nos bastidores do esporte , onde cada detalhe pode definir uma vitória ou uma queda, a saúde mental passou a ocupar um espaço que antes era ignorado. Muitos atletas quando se lesionam, sofrem muitos ataques na mídia. Rosa Costa, psicóloga, deixou claro como as emoções, a pressão e o autocuidado são parte decisiva da rotina dos atletas
A saúde mental fragilizada impacta diretamente o desempenho físico e técnico dos atletas.
Depois dos episódios de racismo sofridos por Vinícius Júnior na Espanha, a reação do futebol deixou de ser apenas protocolar. Aquilo que antes se resolvia com notas oficiais e multas simbólicas passou a gerar um incômodo institucional difícil de ignorar. A exposição mundial dos casos e a insistência de Vini Júnior e de torcedores em denunciá-los publicamente, empurrou clubes, ligas e federações para um tipo de resposta mais coordenada, ainda que desigual entre si.
De um lado, clubes passaram a reforçar campanhas internas, implementando protocolos mais claros para orientar jogadores e torcedores sobre condutas racistas. A postura mudou especialmente nos estádios: sistemas de identificação, câmeras e procedimentos de retirada imediata de torcedores flagrados em atos discriminatórios começaram a ser usados de forma mais assertiva.
CLUBES E FEDERAÇÕES COMEÇAM A AGIR
Atualmente a pauta saúde mental tem sido mais debatida dentro do futebol, muitas das vezes, a justificativa de uma derrota não é sobre técnica, erro individual ou tático, ter um mental forte pode ser o caminho para se ganhar ou perder uma partida. Thiago Carvalho repórter da TV Bandeirantes fala sobre esse assunto ter ganhado mais visibilidade dentro das coletivas.

Nos últimos anos, equipes de elite criaram departamentos de psicologia e programas de apoio emocional, para oferecer suporte contínuo aos atletas. Esses setores trabalham desde o controle da ansiedade até o fortalecimento da autoconfiança, integrando o cuidado emocional à rotina esportiva.
Além disso, programas de apoio foram criados para acompanhar momentos críticos, como lesões e queda de rendimento. O objetivo é garantir que o jogador tenha suporte integral, entendendo que mente e desempenho caminham juntos.
EXEMPLOS QUE INSPIRAM MUDANÇA
Jogadores que decidiram expor seus problemas emocionais abriram caminho para uma nova geração mais consciente. O debate sobre saúde mental no futebol mostra que o jogo vai muito além das quatro linhas. Cuidar da mente é tão importante quanto fortalecer o corpo.
Dessa forma, Rosa Costa afirma que é um processo que está em construção, mas já existe mais abertura.
Apesar dos avanços nas discussões sobre saúde mental no esporte, ainda há um longo caminho a percorrer. Em um ambiente historicamente marcado por expectativas altas, pressão constante e exigências de performance desde muito cedo, questões como ansiedade, depressão e sofrimento emocional foram por décadas invisibilizadas ou tratadas como sinais de fraqueza. É justamente nesse contexto que surge a importância de ampliar o debate e compreender como essas vivências afetam, profundamente, a trajetória de tantos atletas. Não apenas no campo de jogo, mas em suas vidas pessoais, em suas relações e em seu senso de identidade. Contudo, é importante destacar que esse movimento ainda está no começo. A naturalização das conversas sobre saúde mental no futebol demanda tempo, investimento e, principalmente, compromisso social para que o assunto deixe de ser tabu e se torne parte integrante do cotidiano dos atletas. Thiago Carvalho, traz um ponto importante em sua entrevista. Para ele, quanto mais o tema ganha espaço público, mais jogadores se sentirão confortáveis para reconhecer seus sentimentos, pedir ajuda e compartilhar suas experiências. Thiago destaca que essa visibilidade não deve se limitar a casos isolados ou a momentos de crise, mas precisa fazer parte de um diálogo contínuo, que normalize o fato de que atletas, mesmo aqueles vistos como ídolos, também enfrentam desafios emocionais intensos.
A perspectiva que ele traz é essencial porque conecta dois pontos fundamentais: a urgência do debate e a importância do acolhimento do público. Não basta apenas falar sobre o problema; é preciso garantir que exista uma rede de apoio efetiva, que envolva profissionais especializados, clubes preparados, famílias informadas e uma comunidade esportiva disposta a escutar sem julgamento. Esse processo, como reforça Thiago, depende da construção coletiva de um ambiente mais humano, empático e consciente da realidade psicológica dos atletas.
A ansiedade não é um sinal de fraqueza, é uma resposta emocional legítima a pressões que muitas vezes ultrapassam a dimensão esportiva. Ao tornar essa conversa socialmente mais presente, abrimos portas para que mais jogadores encontrem segurança para se expressar, para buscar ajuda e para construir trajetórias menos solitárias e mais saudáveis.
A ampliação do debate sobre saúde mental no futebol mostra que o esporte está, enfim, começando a encarar uma realidade por muito tempo ignorada. Entre a pressão precoce das categorias de base, o peso das expectativas, o assédio das redes sociais, o medo de falhar diante de milhões e as marcas causadas por episódios de racismo e violência simbólica, os jogadores revelam um cenário emocional que exige atenção constante. A performance em campo, como apontam especialistas e atletas, não pode mais ser desvinculada da estabilidade psicológica de quem veste a camisa.
Os bastidores mostram que o futebol começa a se transformar: clubes criam estruturas de apoio, profissionais especializados passam a fazer parte das comissões técnicas, e a discussão chega com mais força às entrevistas, aos centros de treinamento e às arquibancadas. Embora ainda seja um movimento inicial, essa abertura representa um passo essencial para romper o tabu que sempre envolveu o tema.




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