QUANDO O GOVERNO NÃO CHEGA, A COMUNIDADE ENSINA: A FORÇA DA CAPACITAÇÃO POPULAR NAS PERIFERIAS.
- Alunos UVA

- 1 de dez. de 2025
- 13 min de leitura
Por Carolina Pimentel e Marina Xavier

Alunas da turma de design de sobrancelha da capacitação Leny da África. - Foto: Arquivo pessoal.
Num pequeno salão improvisado na Cidade de Deus, o som do secador se mistura às risadas de jovens que sonham com um futuro diferente.Entre escovas, esmaltes e tesouras, nasce mais do que beleza: nasce esperança. Foi ali, em 2014, que Leny Ferreira decidiu transformar a própria história em ferramenta de mudança e fundou o Capacitação Leny da África, uma ONG dedicada a oferecer cursos profissionalizantes gratuitos na área da beleza. O projeto, que começou com poucos alunos e recursos limitados, hoje representa um farol de inclusão para milhares moradores da periferia carioca , mostrando que um simples gesto –ensinar uma profissão– pode reescrever destinos inteiros.
No Brasil, a busca por qualificação profissional ainda esbarra em desigualdades profundas. Segundo dados do IPEA e do IBGE, mais de 30% dos jovens entre 18 e 24 anos estão fora do mercado de trabalho e não estudam, e quase metade das mulheres das periferias atua na informalidade por falta de acesso a cursos e formação técnica. O impacto da educação profissional, porém, é evidente: de acordo com o Senai, mais de 85% dos alunos formados em cursos técnicos estão empregados, alcançando um dos maiores índices de empregabilidade desde 2002. Nesse cenário, iniciativas de capacitação se tornam essenciais para romper ciclos de vulnerabilidade e abrir caminhos reais para autonomia financeira.
“Muitos chegam dizendo que não vão conseguir.” É assim que Sumaia Santos, professora de design de sobrancelha no Capacitação Leny da África, resume o primeiro grande desafio enfrentado pelos novos alunos.
Segundo ela, a baixa autoconfiança e o desconhecimento total sobre a área escolhida são obstáculos frequentes para quem ingressa no projeto. “Eles vêm com o sonho de ter uma profissão, mas sem saber absolutamente nada do conteúdo”, explicou.
Sumaia destaca que o risco de desistência é maior no início, quando medo e insegurança dominam. Por isso, o acompanhamento próximo torna-se parte essencial do trabalho pedagógico. “Meu maior desafio é motivar diariamente. Muitos pensam em parar no meio da caminhada, e nossa missão é evitar que isso aconteça”, afirmou.
Embora a capacitação técnica seja o propósito central do curso, as transformações interpessoais são igualmente profundas. Alunas que chegam tímidas e retraídas passam a interagir e criar vínculos ao longo das aulas. “É bonito ver quando começam a conversar, fazer amizades, se aproximar. A convivência muda muito o comportamento delas”, relatou.
A própria trajetória de Sumaia dentro do projeto reforça a importância da iniciativa. Ex-aluna do Leny da África, ela conta que foi uma antiga instrutora quem identificou seu potencial e a motivou a dar o próximo passo. “Minha professora dizia que eu tinha capacidade de capacitar outras pessoas. Isso mudou o rumo da minha vida”, disse.
O projeto funciona graças ao trabalho voluntário de seus instrutores, que dedicam tempo e conhecimento sem retorno financeiro. “A gente não recebe nada. É tudo por amor ao próximo. Não é qualquer pessoa que para a vida para dar curso de graça”, ressaltou.
Para Sumaia, a maior recompensa é testemunhar a evolução das alunas. “Ver que elas chegam sem saber de nada e, de repente, estão produzindo, confiantes, realizadas… isso me enche de alegria. É uma sensação de dever cumprido”, concluiu.

Sumaia santos, professora e coordenadora do curso design de sobrancelha.- Foto: Reprodução por Marina Xavier
“Eu sempre passava aqui na Taquara, olhava o projeto e pensava: um dia eu vou fazer esse curso.” Assim conta Maria Aparecida de Souza, 50 anos, uma das alunas do curso de design de sobrancelhas do Capacitação Leny da África. Durante muito tempo, a vontade de aprender esteve presente, mas as circunstâncias não permitiam. Até que, finalmente, ela conseguiu se inscrever. “Graças a Deus, deu certo. Eu sempre fui uma pessoa que busca conhecimento. A idade não me impede de aprender — pelo contrário, me incentiva.”
Para Maria Aparecida, essa capacitação é apenas o começo. Ela já planeja continuar estudando, fazendo outros cursos dentro da área da beleza. “É essencial. Eu quero crescer e abrir portas.”
Antes de entrar no projeto, ela não tinha qualquer experiência com sobrancelhas. “Entrei sem saber nada, nada mesmo. E hoje já estou me formando, vou receber meu certificado. “Ainda não trabalho na área, mas pretendo, para agregar valor na minha vida e na da minha família.”
A rotina dentro do curso tem sido transformadora. Maria fala com brilho nos olhos sobre a turma e da professora. “É maravilhoso. A turma é sensacional, e a professora… nota 10! Ela ensina muito bem, sempre disposta a ajudar, a mostrar onde estamos errando, onde podemos melhorar. Isso faz toda a diferença.”
A motivação para seguir no design de sobrancelhas vem de uma antiga paixão. “Eu sempre gostei de arte. E o design de sobrancelha, pra mim, é uma arte também. Não é só estética — é transformar a pessoa. Mexe com a autoestima dela. Faz com que ela se veja de outra forma. Isso tem muito valor pra mim.”
Maria Aparecida também reconhece o papel social da profissão e do projeto. “O Leny da África faz isso: ajuda pessoas através do curso. E eu quero fazer o mesmo. Eu tenho esse desejo no coração, de trabalhar o lado social também.”
Hoje, ela se sente mais confiante e preparada para seguir no novo caminho — ainda que reconheça que a jornada é longa. “Ninguém sai 100% pronto, porque a cada dia a gente aprende mais. Cada cliente é um desafio, cada sobrancelha tem um design único. A gente fica nervoso, claro, sempre quer fazer o melhor. Mas o curso ensina a enfrentar esses desafios e seguir evoluindo.”

A motivação de Andressa Araújo, 36 anos, para entrar no Capacitação Leny da África começou de forma simples: observando amigas que já haviam participado do projeto. A curiosidade virou incentivo. “Vi que tinha cursos que me interessavam e decidi experimentar”, lembra ela. O primeiro passo foi o curso de tranças — uma escolha prática e afetiva. “Eu tenho filhas, meninas, e pensei que aprender trança já seria uma ajuda.”
Sem qualquer experiência na área, Andressa mergulhou no aprendizado e percebeu que aquele curso seria mais do que uma habilidade nova. “Foi um divisor de águas. Você entra achando que vai aprender uma técnica e acaba se transformando como pessoa.”
A partir dali, continuou buscando capacitação. Fez um curso de manicure para se atualizar — já que atuava na área — e, mais tarde, decidiu aprender design de sobrancelhas. “As coisas mudam, e a gente precisa acompanhar. Eu quis me capacitar porque gosto da área e sabia que agregaria ao meu trabalho.”
O que mais impressionou Andressa foi a qualidade do ensino em relação ao valor acessível. “Um curso social que ensina como um de mil reais”, descreveu. Os R$ 35 investidos renderam conhecimento técnico sólido, certificação e perspectivas reais de crescimento. “Pesquisei bastante e vi que o conteúdo daqui é muito forte. A gente aprende de verdade.”
A experiência em sala também marcou profundamente sua trajetória. Para ela, a força do grupo é um dos pilares do projeto. “A gente aprende com a professora, mas também aprende muito umas com as outras. Sempre tem alguém passando por uma dificuldade, e aí você vê que não está sozinha.”
Chegar às aulas, muitas vezes, já era uma vitória. “Toda semana acontece alguma coisa tentando te impedir de vir, mas quando você consegue chegar, sente que valeu a pena. É como se a energia mudasse.”
Um dos momentos mais intensos que viveu no projeto foi a participação em uma competição prática — a chamada “batalha”. A substituição de última hora da participante escolhida trouxe tensão para o grupo, mas também superação. “A gente achou que não ia dar certo, mas ela enfrentou o medo e fomos até o pódio. Chegamos em segundo lugar. Pra gente, aquilo foi vitória.” Segundo Andressa, o incentivo da professora foi fundamental. “Ela sempre acredita na gente.”
Hoje, o impacto do curso se reflete diretamente em sua vida profissional. “Sim, me ajudou a conseguir trabalho. Hoje sou autônoma. Não trabalho mais como CLT, trabalho pra mim.” O novo cenário proporciona liberdade e equilíbrio. “Consigo cuidar das minhas filhas e também ganhar o meu dinheiro, do meu jeito, no meu tempo.”
A transformação mais profunda, porém, foi interna.“Eu não tinha confiança em mim. Tinha medo. Mas o conhecimento traz segurança. A gente vai aprendendo a acreditar no próprio trabalho e a não ter medo de tentar.”

Andressa Araújo, 36 anos, aluna do curso design de sobrancelha do projeto social Leny da África. - Reprodução: Marina Xavier

Aluna realizando procedimento de design de sobrancelha durante aula prática do projeto de Capacitação. - Foto: Reprodução por Marina Xavier.
A idealizadora Leny Ferreira, à frente do projeto Capacitação Leny da Àfrica, fala de formação profissional como quem fala de vocação — não uma técnica, mas um chamado. Para ela, capacitar alguém é tocar duas dimensões ao mesmo tempo: a prática e a humana. “A gente desenvolve não só o lado profissional, mas também o humanitário”, conta, como se revelasse o segredo do que sustenta o projeto. Nas turmas gratuitas, os alunos não recebem apenas um certificado. Saem dali com a noção de que podem transformar o próprio caminho — e, nele, abrir espaço para outros. Empreender, para Leny, não é acumular lucro, mas multiplicar oportunidades.
“Vai além de um curso. A gente quer ver pessoas alcançando seus objetivos.”
O que move a idealizadora não é uma lógica institucional, mas uma energia visceral. “O coração da capacitação é o coração mesmo”, ela diz, num entusiasmo que quase transborda. “Tem sentimento ali, tem sangue fervendo na veia.” A profissionalização, então, vira apenas a porta de entrada para algo maior: o desejo de ver pessoas alcançando seus objetivos, encontrando novos rumos, percebendo que há espaço para crescer. Quando fala das dificuldades, no entanto, Leny parece incapaz de enxergá-las. Não por ingenuidade, mas por amor. “Eu amo tanto o que eu faço que não consigo ver dificuldade”, afirma, com uma sinceridade tranquila de quem vive o que diz. Sem apoio parlamentar, sem financiamento, o projeto se sustenta em algo que não cabe em planilhas: a vontade coletiva. “A gente consegue extrair das pessoas a vontade de fazer parte”, conta. Hoje, são mais de 300 voluntários — um exército silencioso, que ela descreve como “voluntariado de excelência”.
A África Capacitação cresceu ouvindo o mercado — suas dores, suas faltas, suas urgências. O projeto se move como quem sempre está atento ao próximo passo. “A cada etapa, a gente cria novos cursos”, explica. Em meio à escassez de mão de obra qualificada, o trabalho da equipe se torna ponte entre quem precisa aprender e quem precisa contratar.
O que começou no município do Rio se espalhou. Primeiro, alcançou cidades vizinhas. Depois, ultrapassou os limites do estado. Agora, Leny mira longe: outros países, outras realidades, outros horizontes. “A meta é chegar a outros países”, diz, como quem fala de um destino inevitável

Apesar dos discursos sobre inovação e produtividade, o país ainda enfrenta um abismo entre a educação oferecida e as demandas do mercado. Em 2025, 81% das empresas brasileiras relataram dificuldade para encontrar profissionais qualificados, segundo a pesquisa Escassez de Talentos do ManpowerGroup - uma das maiores taxas do mundo. Ao mesmo tempo, a taxa de informalidade chega a 38,9%, de acordo com o IBGE, evidenciando como grande parte da população trabalha sem estabilidade, proteção ou formação adequada.
1- Do desemprego à oportunidade: onde a capacitação faz diferença.
A capacitação profissional desponta como uma das principais soluções para enfrentar os desafios estruturais do mercado de trabalho. Segundo o Mapa do Trabalho Industrial 2025-2027, produzido pelo SENAI e pela CNI, 14 milhões de trabalhadores precisarão ser qualificados apenas na indústria nos próximos dois anos, seja para repor mão de obra, seja para atender profissões que estão surgindo com novas tecnologias. Além disso, dados do SENAI mostram que mais de 85% dos ex-alunos de cursos técnicos conseguem emprego após a formação, reforçando o impacto direto da educação profissional na empregabilidade.
Em um país onde o desemprego e a informalidade ainda atingem milhões de pessoas, investir na formação e no aprimoramento das habilidades dos trabalhadores pode abrir caminhos reais para o crescimento econômico e a inclusão social. Ao oferecer oportunidades de qualificação, programas públicos, instituições de ensino e iniciativas comunitárias ajudam a transformar vidas, aumentar a produtividade e reduzir desigualdades regionais.

O gráfico mostra que:
• Pessoas com ensino médio incompleto têm quase 3 vezes mais chance de estarem desempregadas do que quem tem ensino superior completo.
• A taxa de desemprego cai conforme aumenta o nível de instrução.
Isso revela uma relação direta entre capacitação e inserção no mercado de trabalho.
Os dados mostram que a falta de qualificação impacta diretamente a chance de conseguir um emprego. No terceiro trimestre de 2024, trabalhadores com ensino médio incompleto enfrentaram uma taxa de desemprego de 9,8% — mais que o triplo da taxa observada entre quem tinha ensino superior completo. À medida que o nível de instrução aumenta, o desemprego cai drasticamente, reforçando a ideia de que capacitação é um mecanismo central de proteção social e empregabilidade.
“Isso evidencia que cursos de capacitação — especialmente para quem não concluiu o ensino médio ou não acessa o ensino superior — funcionam como uma ponte entre trabalhadores vulneráveis e as demandas reais do mercado.”
2- Desafios da capacitação profissional no Brasil
A Coordenadora do Firjan Senai, Suelen Barbosa, explica que os desafios da qualificação profissional no Brasil começam muito antes do aluno ingressar em um curso técnico. Segundo ela, as falhas na formação básica criam um efeito cascata que impacta diretamente o processo de aprendizagem. “O estudante chega aos nossos cursos com muitas lacunas, o que dificulta o desenvolvimento pleno das competências técnicas”, afirmou.
Suelen destaca que a capacitação técnica segue sendo um diferencial importante para a empregabilidade dos jovens. Em sua avaliação, qualquer conhecimento adicional pode influenciar positivamente uma entrevista de emprego, mas o impacto vai além do certificado. “A qualificação ajuda na construção das soft skills, que hoje são muito valorizadas pelo mercado. O jovem passa a desenvolver autonomia, comunicação e capacidade de resolver problemas”, explicou.
De acordo com a coordenadora, o cenário atual exige profissionais minimamente preparados em ferramentas de tecnologia e gestão. No entanto, ela aponta que as habilidades comportamentais têm ganhado ainda mais relevância. “As hard skills podem ser ensinadas no dia a dia. Já as capacidades socioemocionais demandam tempo e investimento, e por isso as empresas as valorizam tanto”, observou.
Sobre os programas de capacitação, Suelen reforça que ainda há muito a ser aprimorado para que eles gerem impacto sólido no país. Para ela, o Brasil oscila entre priorizar o ensino técnico ou o ensino superior, como se fossem modelos incompatíveis. “As mudanças de foco dependem muito de quem está no poder, e isso atrapalha a construção de uma educação profissional consistente, contínua e realmente transformadora”, disse.
Atuando diretamente com turmas de formação profissional, Suelen relata que questões socioeconômicas ainda são os principais fatores que afastam jovens e adultos dos cursos. Muitos não conseguem se manter estudando ao mesmo tempo em que precisam trabalhar. “Grande parte dos alunos que evadem sai por falta de recursos financeiros ou porque conseguem um emprego, mesmo fora da área que desejavam. Às vezes é uma escolha entre estudar e se sustentar”, explicou.

Suellen Barbosa, Coordenadora e pedagoga dos cursos técnicos do Firjan Senai Foto: Reprodução/ LinkedIn
3- A visão da Sociologia: Quem fica para trás?
O cientista social Gabriel Lino, formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, afirma que a capacitação profissional no Brasil não pode ser analisada sem considerar as desigualdades sociais. Segundo ele, o acesso limitado à educação básica ainda é o principal fator que impede a entrada de jovens no mercado de trabalho. “Quanto menos informação, educação e acesso ao conhecimento técnico e intelectual uma pessoa tem, menores são suas oportunidades de entrar no mercado”, destacou.
Gabriel explica que muitos jovens de contextos vulneráveis precisam trabalhar cedo para auxiliar no sustento da família, o que reduz drasticamente as chances de estudar e se qualificar. Ele observa que carreiras como programação ou docência exigem formação específica e sólida, inacessível para quem abandona a escola precocemente. Os dados reforçam o diagnóstico: segundo a PNAD Contínua 2024, 8,7 milhões de jovens entre 14 e 29 anos não concluíram o ensino médio, e 42% deles abandonaram os estudos porque precisavam trabalhar.
O sociólogo aponta ainda que falhas estruturais na educação básica — como falta de infraestrutura, material, alimentação e apoio pedagógico — comprometem a permanência escolar. “Mesmo que o currículo seja excelente, sem condições adequadas de ensino é impossível garantir aprendizagem”, afirmou. É também por isso que, em 2024, jovens chegam ao mercado sem domínio de conteúdos essenciais e habilidades fundamentais, como interpretação de texto, pensamento crítico e resolução de problemas.
“O maior obstáculo não é estudar — é sobreviver.”
Sobre o ensino técnico, Gabriel explica que ele ainda é socialmente visto como inferior ao ensino superior, mesmo oferecendo formação prática e inserção rápida no mercado. Ele afirma que essa percepção está ligada à ideia histórica de que o ensino técnico deve preparar para funções de entrada, enquanto o ensino superior formaria profissionais especializados.
Outra barreira importante é a necessidade de renda. Segundo Gabriel, muitos jovens entram cedo em empregos informais ou de baixa qualificação — como caixas de supermercado ou vendedores — porque precisam garantir sustento, o que torna inviável conciliar estudo e trabalho. “O abandono escolar, nesses casos, acaba sendo inevitável”, disse.
Ao analisar o perfil profissional exigido pelo mercado, ele diferencia a versão “oficial” da prática. Para Gabriel, embora empresas afirmem valorizar competências como comunicação e inteligência emocional, o mercado neoliberal tende a buscar trabalhadores que suportem alta pressão e mantenham desempenho constante. “É um profissional que precisa vestir a máscara corporativa e entregar resultados, quase como um robô”, observou.
Em relação às políticas públicas, Gabriel destaca dois pontos essenciais: ampliar vagas em universidades, cursos técnicos e programas profissionalizantes gratuitos; e criar políticas permanentes que garantam a permanência dos jovens na escola desde a infância. Os números mostram que essa necessidade não é teórica: apesar de a taxa de escolarização de jovens de 15 a 17 anos ter alcançado 93,4% em 2024, muitos ainda não conseguem permanecer. Para enfrentar isso, o governo ampliou o número de matrículas em escolas de tempo integral, que subiram de 18,2% em 2022 para 22,9% em 2024.
Ele também aponta que políticas como o programa Pé-de-Meia, criado em 2024, mostram avanços reais: o incentivo financeiro ajuda estudantes de baixa renda a permanecer no ensino médio, reduzindo a pressão por trabalhar cedo.
“Entre a sala de aula e a sobrevivência, muitos jovens acabam escolhendo o que não queriam: trabalhar cedo, abandonar os estudos e adiar um futuro que poderia ser outro.”
Para Gabriel, a transformação real depende de unir acesso e permanência. “Não adianta oferecer cursos de qualidade se os jovens não têm condições de permanecer, aprender e transformar suas vidas”, concluiu.
Mais do que abrir portas no mercado de trabalho, a capacitação profissional revela-se um caminho de autonomia, dignidade e transformação coletiva. Em um país onde oportunidades ainda são distribuídas de forma desigual, cada curso, cada certificado e cada nova habilidade representam mais do que progresso individual: são sementes de mudança que se espalham pelas comunidades, influenciando famílias, quebrando ciclos e criando novas possibilidades de futuro.
A trajetória dos projetos, instituições e pessoas que dedicam tempo e energia à formação de jovens e adultos mostra que capacitar é, sobretudo, acreditar — acreditar no potencial humano, na força da educação e na possibilidade de construir realidades menos excludentes. Ao reunir histórias de quem ensina e de quem aprende, fica evidente que o impacto vai além do currículo: ele se manifesta na autoestima reconstruída, na confiança em novos caminhos e na capacidade de reimaginar o próprio destino.
No fim, a capacitação profissional não é apenas um instrumento técnico. É um ato contínuo de resistência social e de aposta no futuro. Em cada sala de aula improvisada, em cada oficina prática ou em cada computador compartilhado, pulsa a certeza de que ninguém deveria ficar para trás — e que transformar vidas, uma pessoa por vez, continua sendo uma das formas mais potentes de mudar o mundo.




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