Por que todo mundo voltou a comprar vinil?
- Alunos UVA

- 1 de dez. de 2025
- 9 min de leitura
Do streaming ao toca-discos: o LP renasce no Brasil impulsionado por fãs, artistas e movimentos culturais que querem sentir a música fora da tela.
Por Manuella Rody e Maria Luiza Cury

Quando tudo ficou digital, automático e descartável, o vinil voltou para lembrar que o real ainda faz falta. O próprio mercado confirma essa virada: Segundo o relatório global de 2024 da IFPI, a indústria de música gravada faturou US$29,6 bilhões, impulsionada sobretudo pelo streaming, que ultrapassou US$20,4 bilhões e já representa 69% de todo o consumo mundial. Mesmo assim, ou talvez justamente por isso, o vinil ganhou espaço dentro dessa lógica hiperconectada.
No Brasil, os números seguem a mesma tendência. De acordo com a Pro-Música Brasil, o mercado fonográfico movimentou R$3,486 bilhões em 2024, um avanço de 21,7%. Dentro desse cenário, o formato físico surpreendeu: cresceu 31,5% e alcançou R$21 milhões. E, mais uma vez, o vinil puxou a fila. Sozinho, movimentou R$16 milhões, um salto de 45,6% em relação ao ano anterior, e respondeu por 76,7% de todo o faturamento de mídias físicas no país.
O mais curioso é quem está puxando essa volta: metade dos novos colecionadores tem menos de 35 anos. A geração do streaming está redescobrindo o analógico. Para eles, ouvir um álbum inteiro no toca-discos virou forma de desacelerar, cuidar da mente e se reconectar com o que é palpável.
Não compram só pelo som. Compram pela pausa, pelo ritual, pela sensação de ter a música nas mãos, algo que o streaming nunca entrega. E é por isso que o vinil voltou: porque DJs retomaram o disco, lojas independentes lotaram de novo, feiras renasceram e novos apreciadores chegaram.
O vinil como extensão da obra

A trajetória da cantora e compositora Carol Biazin, ajuda a explicar por que o vinil voltou a ocupar espaço no coração da nova geração. Revelada no The Voice Brasil, ela cresceu diante de um público que sempre se sentiu próximo de sua sinceridade, seja nas letras confessionais, nas performances emocionadas ou nas conquistas que colecionou ao longo dos anos. Em 2025, essa relação atingiu um novo patamar com o lançamento de "No Escuro, Quem É Você?", seu terceiro álbum de estúdio e o que lhe rendeu uma indicação ao Grammy Latino na categoria Melhor Álbum de Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa.
Perfil da cantora no Spotify: https://open.spotify.com/artist/5dYdZmGyv2UTIN1XMe1drN?si=PorHTzXPSda2UKp8LeJZDQ

Mesmo vivendo no auge da era do streaming, Carol decidiu que esse trabalho precisava existir também fora da tela, precisava pesar nas mãos, precisava virar objeto. E ela explica exatamente por quê:
“Acredito muito que quando a gente materializa algo, e deixa a arte ainda mais palpável, isso tem o poder de se eternizar e durar para sempre."
Para Carol, transformar um álbum em vinil não é só sobre estética, é sobre humanizar uma obra que antes existia apenas em pixels.
"Quando eu entendi o poder desse álbum e o que ele poderia fazer pelas pessoas, fez ainda mais sentido humanizar aquilo que até então elas só tinham contato através do digital."
O vinil, para ela, prolonga a experiência. Torna o processo mais lento, mais íntimo, mais ritualístico. O ato de puxar a capa, abrir o encarte e observar cada detalhe traz camadas que a tela jamais entrega.
"Você ter a experiência de olhar pra capa de um álbum, abrir o encarte e ver cada detalhe pensado é algo que eu mesma amo. Então eu queria que quem me ouvisse pudesse sentir o mesmo."
Esse gesto de trazer a música de volta para o tato, de fazer o som existir no espaço, também tem a ver com como ela enxerga a memória. Carol acredita que a arte precisa ser guardada, descoberta e transmitida.
"Acho que ter algo em mãos facilita até mesmo o entendimento da obra. sem contar que é um ótimo presente pra quem ama."
E os fãs entenderam rápido o significado dessa escolha. Quando o vinil de No Escuro foi anunciado, a reação foi imediata.
"Com certeza isso fortalece as relações, daqui muitos anos esse álbum ainda vai fazer parte não só da minha vida, mas da vida de quem se identificou também."
Carol tem uma relação antiga com sebos e lojas de LPs usados. Vive garimpando memórias de outros artistas, achando "relíquias", como ela mesma diz. E essa vivência faz com que ela enxergue seu próprio disco dentro de um ciclo maior, um ciclo afetivo e geracional:
"Sempre encontro umas relíquias, então quem sabe um dia seja um vinil meu ali, passando para outras gerações."
Com ela, o vinil deixa de ser apenas objeto nostálgico. Vira gesto de afeto, forma de marcar uma era e maneira de eternizar um trabalho. E é também um símbolo do que grande parte da geração Z tem buscado: uma música que se possa sentir, não só ouvir.
O ritual de quem ama e coleciona
Se a decisão de Carol Biazin de lançar "No Escuro, Quem É Você?" em vinil nasce da vontade de tornar a arte palpável, o impacto desse gesto aparece com clareza na reação de quem acompanha sua trajetória. É o caso de uma fã de 20 anos, que já colecionava discos de MPB, mas que viu no vinil de "No Escuro" algo completamente diferente: um objeto que marca uma era e uma relação afetiva construída ao longo dos anos.
Ela lembra exatamente do momento em que pegou o álbum nas mãos pela primeira vez:
"Êxtase. Sabe quando você gosta tanto de uma música que queria ter ela só pra você? Acho que o vinil traz essa sensação de posse."
Para ela, a experiência vai muito além de adquirir um produto. Tem a ver com resgatar um significado que se perdeu em meio ao consumo acelerado do streaming.
"Em um mundo globalizado, onde temos todo tipo de música disponível para todo mundo, acredito que o ato de ouvir música foi banalizado. Se tornou rotina, perdeu significado. Possuir a música em mãos traz de volta a ritualidade de ouvir um álbum, de sentir e experienciar a música."
Embora já colecionava discos, muitos deles de artistas da MPB que moldaram sua formação musical, a chegada do vinil de "No Escuro" tocou um lugar diferente. Um lugar onde paixão por uma artista, memória afetiva e identidade estética se cruzam. Ela admite que a escolha foi movida tanto pelo amor ao formato quanto pelo amor à própria Carol.
"Acredito que pelos dois. Entretanto, foi mais o amor que sinto pela Carol que fez eu comprar o disco, porque os vinis contemporâneos são vendidos por preços exorbitantes, diferentemente dos LPs dos anos 80 e 90."
O objeto físico torna-se, então, mais que um registro musical: ele vira um marco emocional. Parte de uma história dividida entre artista e fã. E o ‘No Escuro’ tem um impacto especial justamente por revelar uma volta à essência de Carol, algo que ela acompanha desde o começo.
"Por ter acompanhado a Carol desde o início, sei o estilo de música que ela realmente se identifica e, por isso, sei que ela se adaptou à indústria musical. Então foi lindo ver ela voltando pra essência."
Comprar o vinil de "No Escuro" foi um gesto de amor por uma artista que ela acompanha desde o início, por alguém cuja trajetória ela viu crescer e se transformar. Foi a forma que encontrou de guardar essa era nas mãos. No fim, a experiência do vinil se mistura à experiência de ser fã. Uma relação menos apressada, mais íntima e mais profunda com a música, e também com quem a cria. É isso que faz a nova geração colocar um disco para tocar: o desejo de estar perto, de sentir de verdade, de eternizar o que a artista significa na vida de quem ouve.
O comércio que resiste e a cena que cresce
O retorno do vinil não é moda, nem nostalgia exagerada, é a resposta aos algoritmos que adivinham o que ouvimos, resposta às playlists feitas para 30 segundos de atenção e resposta a uma cultura que transformou a música em barulho de fundo. O vinil exige pausa, exige cuidado, exige presença. E justamente por isso encontrou força na era em que nada mais para. Psicólogos vêm apontando como rituais analógicos, como sentar, escolher um disco e virar o lado, funcionam como mecanismos de desaceleração mental, devolvendo ao corpo a sensação de tempo real. Ouvir um álbum inteiro pode reorganizar a cabeça.
No Rio, essa mudança aparece em lojas lotadas, feiras que se multiplicam e DJs jovens que encontram no analógico uma estética, uma identidade e uma forma de pertencimento. Mas ela nasce também nos estúdios, quando artistas percebem que suas obras precisam existir fisicamente. O renascimento do vinil vive nos artistas e nos fãs, mas ganha corpo verdadeiro nas ruas: nas feiras, nas calçadas, nas lojas que viraram pontos de encontro.
Na Baixada Fluminense, esse movimento tem um nome: Toca do Vinil.
Há 21 anos no ar, o espaço sobreviveu ao auge, a queda, ao esquecimento e agora testemunha o renascimento do formato de dentro da própria trincheira.
Instagram da Toca do Vinil: https://www.instagram.com/tocadovinil.oficial?utm_source=ig_web_button_share_sheet&igsh=ZDNlZDc0MzIxNw==

Bruno Herdy, dono da loja, diz que para eles nada mudou, o vinil sempre esteve ali.
O que mudou foi o mundo ao redor.
"A loja tem 21 anos. Pra gente, nada mudou: sempre vendemos vinil. O que mudou foi o hype entre os jovens."
E ele sabe de onde veio esse novo impulso:
“A galera descobriu o vinil através das redes.”
O público da Toca, hoje, é inteiramente intergeracional: gente de 15 a 80 anos divide o mesmo corredor estreito, o mesmo balcão, o mesmo ouvido curioso. Bruno lembra de quando, anos atrás, o vinil era tratado como tralha, peso, entulho, algo que se jogava fora.
Agora, vê o disco ganhar outro status:
“Virou quadro, virou obra de arte”.
A loja se mantém acessível, com preços que vão de R$10 a R$200, e recebe clientes do Rio inteiro, especialmente jovens que chegam pela primeira vez, buscando seus primeiros LPs. Para muitos deles, o ritual do garimpo é tão importante quanto o disco.
E sobre o futuro do movimento, Bruno não hesita:
"Vai continuar. Os artistas vão lançar digital e vinil. Esse movimento ainda vai dominar por muitos anos."
A Toca do Vinil
reforça algo essencial sobre a volta dos discos: não é só sobre saudosismo, não é só sobre som. É sobre permanência, sobre comunidade, sobre devolver à música um lugar que ela perdeu no digital. A Baixada, como sempre, entendeu isso antes da tendência.
Prainha discos, do apartamento à referência carioca
A história da Prainha Discos, parece cena de filme. O dono cresceu colecionando LPs com o pai e guardou até hoje a primeira caixa que os dois montaram juntos. Na adolescência, gastava o salário todo em discos no Centro do Rio. Com o tempo, começou a receber coleções inteiras de pessoas que estavam prestes a jogar tudo fora. Guardou cada uma, até acumular mais de 20 mil LPs dentro de um quarto e sala.
A loja, curiosamente, não nasceu de um grande plano.Nasceu de um improviso. Em plena pandemia, ele colocou alguns discos repetidos para vender na calçada do Largo da Prainha. E ali, do lado de fora, no meio da rua, entendeu que a cidade estava pronta para reencontrar o vinil. O que era só uma venda virou ritual, virou feira, virou instagram, e em 2024, virou loja física.
Sobre a relação da juventude com o formato, ele não tem dúvidas:
"Os jovens são curiosos. Mesmo sem nostalgia, eles enxergam beleza no analógico."
E vê isso acontecendo de todos os lados:
- artistas lançando versões exclusivas em vinil;
- Beyoncé vendendo edições só em LP;
- criadores de conteúdo aparecendo com toca-discos nos vídeos;
- produções da Netflix e Amazon usando discos na decoração;
e uma vontade crescente de voltar ao mundo antes das telas.
Para ele, tudo se resume a uma cena que, hoje, tem cara de manifesto cultural:
“Os jovens entendem o valor de reunir amigos para ouvir um álbum de ponta a ponta.”

É dessa visão que nasceu o Vinil na Calçada, o projeto mais emblemático da Prainha. Toda sexta-feira, o Largo(Botar Link com endereço) se transforma em pista pública, com a rua inteira servindo de sala de audição aberta. É uma resposta direta ao elitismo que, durante anos, limitou o acesso à cultura do vinil.
Vídeo do VNC no instagram: https://www.instagram.com/p/DCjjF94J7AZ/?img_index=3&igsh=MTVvMXFyZDdrN3Z4dw==
"O vinil nunca foi algo acessível. Eram poucos DJs, festas pontuais em lugares caros. Decidimos fazer diferente: apresentar esse universo pra quem passa na calçada, sem elitismo e sem panelinha."
A proposta vai além da festa. É formação, é porta aberta, é oportunidade. Jovens DJs tem espaço para tocar em equipamento profissional, em contato com um público diverso e com a rua como palco.
"Criamos uma cultura de audição acessível e interativa."
A Prainha Discos é, hoje, uma síntese perfeita do renascimento do vinil no Rio:Nasceu da garagem, cresceu na rua e se tornou referência. Ali, o disco não é só objeto, é encontro, é comunidade, é cidade. É música voltando ao espaço público.

O futuro gira devagar
O vinil não voltou pelo passado, voltou pelo futuro. Pela vontade de desacelerar. Pelo desejo de tocar a música no mundo real. Pelo encontro entre artistas que querem ser eternizados e jovens que querem sentir de verdade. E essa busca pelo físico atravessa toda a cena. Além de nomes como Carol Biazin, também Marina Sena, Jão, Charli XCX, SZA e tantos outros tem apostado em edições especiais, prensagens limitadas e capas pensadas como objetos de afeto, não só como mercadoria. É um movimento puxado pelo desejo dos fãs, que sustentam esse retorno com a vontade de ter algo que se toca, se guarda e se vive. E esse movimento só existe porque há um público disposto a mantê-lo vivo. São os fãs que colecionam, que esperam o correio, que organizam prateleiras, que enxergam no disco um prolongamento da relação com a música. No Rio, essa história se materializa nos discos que giram na Baixada, nas calçadas da Prainha, nos quartos de fãs e nas mãos de quem descobre que a música também precisa pesar. O vinil sobreviveu porque tudo ficou rápido demais. E porque, no fim, sempre haverá quem escolha ouvir devagar.




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