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Melodia & Barulho: a construção de uma identidade sonora que recusa o óbvio

  • Foto do escritor: Alunos UVA
    Alunos UVA
  • 2 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura

Com feats marcantes ao lado de BK e 2ZDinizz, o artista da Baixada Fluminense se consolida ao criar pontes sonoras entre estilos que parecem incompatíveis.


Por Guilherme Rueger

Foto: Jomboh
Foto: Jomboh

O que é melodia além do encontro das vozes que nos atravessam A partir dessa provocação, Maui dá vida ao seu primeiro álbum de estúdio, Melodia&Barulho. Filho de Duque de Caxias, o MC, cantor e compositor constrói um trabalho que celebra os contrastes que moldam sua identidade e seu olhar para o mundo.


No disco, o artista transforma paradoxos em estética. São 16 faixas que reúnem Afrodite BXD, Tshawtty, Yoún, Maskotte, KBRUM, Bruno Kroz, Scof Savage e 2ZDinizz. A partir dessa comunhão de talentos, o álbum une R&B, funk, pagode, afrobeat, drill, grime e reggae em uma linguagem que nasce da periferia e volta para ela em forma de arte, festa e afirmação.


Maui se tornou conhecido pela maneira como sua voz se adapta a diferentes ritmos, sempre preservando a essência do R&B em tudo que toca. Em Melodia&Barulho, essa versatilidade ganha outro significado.“Quando chegamos nesse nome, percebi que ele dava conta do que eu sou”, conta.


Cada música do trabalho parece revelar uma camada de um artista que entende que suavidade e caos podem ser parte da mesma verdade. O álbum se abre com o poema “Tem Gente Com Fome”, de Solano Trindade, interpretado por Sílvia de Mendonça. A presença da jornalista, atriz e produtora cultural estabelece o gesto político de reconhecer as raízes da arte negra e as lutas que definem o território onde Maui foi criado.



Processo de criação



Ao longo da criação do disco, o artista mergulhou em referências sonoras e visuais que foram se acumulando, lapidadas com o mesmo cuidado que apresentou em Rubi. Mas agora há um horizonte mais amplo, onde forma e significado caminham juntos. São dois percursos que se encontram: a pesquisa musical que expande fronteiras e a narrativa pessoal de alguém que ainda está se inventando enquanto caminha.


O álbum se desenha como uma história narrada em primeira pessoa, repleta de dúvidas e descobertas. Maui não se coloca no lugar de quem já sabe, mas de quem observa, aprende e sente.“Quis assumir o que me contradiz e o que me fortalece”, diz.

Essa visão também orienta a identidade visual do projeto. Ao lado de Bernardo “Piordesigner” Lobo, o artista convidou o próprio público para participar da construção da imagem que melhor representaria o disco e seu contexto. Tudo nasce do diálogo: o que Maui expressa, o que o público percebe, e o que essa troca produz entre os dois lados.


O mesmo pensamento coletivo aparece na produção musical. Taleko traz vivacidade eletrônica, enquanto CL Fez o Beat acompanha todo o desenvolvimento criativo e direciona os caminhos do som. Chediak colabora para dar uniformidade às faixas e NMS conduz a mixagem, aproximando o disco de uma atmosfera contemporânea e vibrante.


O trabalho visual reforça essa energia conjunta. Com direção de arte da Veneno Tropical, fotografia de Wander Scheeffër, direção visual de Jomboh, co-direção de Diola e styling de Mafê, a capa retrata Maui cercado por pessoas que foram fundamentais em sua construção como artista e ser humano.


”Queria que o álbum soasse como pista e poesia ao mesmo tempo”

Faixa a faixa


Melodia&Barulho não tenta ser um disco fácil. A estreia de Maui como cantor, MC e compositor fluminense parte de uma escolha arriscada: combinar sonoridades que raramente dividem a mesma prateleira. Pagode encontra drum and bass, R&B se cruza com reggae, grime se aproxima de afrobeats. Em vez de choque, o que aparece é uma conversa entre mundos que parecem distantes, mas se reencontram dentro da estética inquieta do artista.

O conceito visual anunciado na capa, inspirada na obra Hell De Janeiro (2021), de ArteDeft, já indica o norte criativo: a harmonia nasce do tumulto. Essa ideia se confirma logo na abertura, com Tem Gente Com Fome, quando a interpretação de Sílvia de Mendonça para o poema de Solano Trindade estabelece uma atmosfera política e urgente que ecoa ao longo do disco.


A cada faixa, Maui desmonta previsões. Seu Telefone resume bem esse movimento. A referência à Hotline Bling pode sugerir familiaridade, mas, na prática, a música assume vida própria graças aos arranjos que se expandem e ao contraste vocal de Cristal. A sensação é de constante deslocamento: qualquer direção parece possível, nenhuma escolha soa aleatória.

Apesar de abraçar o caos como motor, Melodia&Barulho não se perde de si. Existe uma lógica interna que organiza o percurso emocional do álbum. No início, as músicas se interessam por afetos intensos, celebrações e romances que assumem o protagonismo. Faixas como Comemorar? e Te Ganhar deixam isso claro, concentrando as luzes da festa e da conquista pessoal.


Na segunda metade, a atmosfera se transforma. A euforia cede espaço para inquietações sociais, feridas íntimas e reflexões que pesam mais no corpo. A mudança de tom é proposital e ressalta as dualidades que o disco carrega, mas também cria uma sequência menos imediata, exigindo mais dedicação do ouvinte para ser totalmente absorvida.

Quando o caminho parece mergulhar demais na densidade, Maui puxa novamente o ar. Não É Tarde surge como síntese de uma esperança que recusa ser silenciada. Ela reorganiza a energia do álbum e alonga a narrativa até um final que reafirma o gesto original: aceitar o risco como parte do processo.


Ao final da audição, permanece a impressão de que Melodia&Barulho funciona justamente porque não tenta agradar por atalhos. Maui escolhe um terreno instável, de experimentação constante, onde o imprevisível substitui qualquer fórmula. É ali, na fricção entre opostos, que sua arte encontra o próprio sentido.


História de Maui


O cantor, compositor e MC Maui descobriu sua voz na sala de casa, em Parada Angélica, Duque de Caxias. Adolescente, passava horas assistindo DVDs ao vivo de Thiaguinho, Usher e Luan Santana. Quem primeiro acreditou em seu talento foi a mãe, Denise, que comprou discos de karaokê para ele treinar. Evangélica e afetuosa, ela incentivou a escuta ampla e ajudou a lapidar detalhes vocais que hoje marcam o artista.


Antes de conquistar espaço na cena, Maui foi operador de câmeras em um hospital. Gravava suas vozes pelo celular, de costas para o equipamento, e enviava para produtores que buscavam seu timbre. Participações em projetos de Luccas Carlos, Ogoin & Linguini, André Miquelotti e outros mostraram que sua música encontrava caminhos mesmo longe dos holofotes.


A paternidade trouxe urgência. Com o nascimento da filha Mali, Maui entendeu que sua arte precisava ser ferramenta: sustento, pertencimento e ponte com seu território. Esse vínculo comunitário cresceu com oficinas em escolas públicas e a articulação do Slam BXD, movimento que reforçou sua relação com a palavra e com a memória do lugar de onde vem.

Sem se prender ao óbvio, Maui canta afetos, corpo, desejo e luta. Quer que sua música seja reconhecida pela própria comunidade, que transite entre pagode, trap e funk sem perder raízes. Para ele, comunicar é mais que falar: é encontrar a linguagem certa para quem importa.


Entre o improviso do hospital e os palcos, Maui segue transformando contradições em expressão. Sua carreira é feita de risco, afeto e resistência. Um artista que aprende com o caos e o devolve como melodia.

 
 
 

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