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Identidades dos quatro grandes do Rio e a influência de torcidas, instituições e Estado no futebol carioca

  • Foto do escritor: Alunos UVA
    Alunos UVA
  • 1 de dez. de 2025
  • 19 min de leitura

No Rio de Janeiro, onde o futebol sempre foi mais que jogo, os quatro grandes clubes nasceram carregando consigo projetos distintos de país. Fluminense, Botafogo, Flamengo e Vasco foram moldados por um conjunto de tensões sociais que atravessam mais de um século de história, e seus torcedores herdaram muito mais que cores e símbolos. Herdaram memórias de classe, disputas políticas, batalhas por pertencimento e a sensação de que cada clube guarda uma versão possível do Brasil. As arquibancadas cariocas, antes de serem arquibancadas, sempre foram espelhos.

Da aristocracia tricolor à rebeldia botafoguense, do “flamenguismo” que nasceu popular antes de ser fenômeno de massa ao “vascaínismo” que se edificou na resistência operária, os quatro grandes do Rio revelam um país dividido pelas mesmas forças que tentaram moldá-los. Entre remo e república, ditadura e democracia, racismo e afirmação popular, as torcidas contam histórias que a política tentou apagar. No fim, entender o futebol carioca é encarar a identidade de um Brasil que se reinventa nas arquibancadas, mas jamais abandona suas cicatrizes.


O Futebol que inventou o Rio


O futebol não chegou ao Rio de Janeiro apenas como esporte. Ele desembarcou como ritual de classe, como marca estética de uma elite que enxergava na Inglaterra não apenas o berço do jogo, mas o modelo civilizatório que pretendia reproduzir nas ruas da então capital federal. Antes da bola rolar, vieram os barcos. E antes dos barcos, vieram as famílias que comandavam os clubes de remo. Foi desse caldo social que emergiram as primeiras camadas da identidade dos quatro grandes do Rio.

O Fluminense, fundado em 1902, nasceu carregando o requinte de um projeto de cidade que se queria elegante. Era o clube da fidalguia carioca, concebido como extensão das salas aristocráticas, onde esporte e refinamento caminhavam juntos e onde a cartola não era apenas símbolo, mas declaração de status. O Botafogo, surgido ainda em 1894, trazia outra herança política. Seu fundador, Luiz Caldas, era militar monarquista e participou da Revolta Armada que tentou barrar a consolidação da República. O clube carregava desde cedo a marca da contestação, um certo incômodo com os rumos oficiais, uma rebeldia que atravessaria décadas. Já o Flamengo e o Vasco foram gestados no universo da colônia portuguesa que dominava o remo na virada do século. Flamengo, em 1895, e Vasco, três anos depois, surgiram como espaços de sociabilidade dos imigrantes que buscavam um lugar numa cidade que os olhava com desconfiança.

No entanto, se as origens revelam a estrutura inicial de cada agremiação, é a década de vinte que vira o tabuleiro. Em 1923, o Vasco sobe à primeira divisão com seu time de operários e negros, os chamados Camisas Negras, e aquilo desmonta a lógica higienista da elite esportiva carioca. Quando a AMEA, liga controlada por clubes da aristocracia, exige em 1924 a exclusão de doze jogadores vascaínos por serem negros, pobres, analfabetos ou simplesmente trabalhadores, o que se trava ali não é apenas uma disputa esportiva. É uma disputa por modelo de sociedade. A Resposta Histórica, carta que eterniza a recusa vascaína, faz do clube um marco de resistência social e transforma São Januário num monumento à insurgência popular. O que o Vasco faz ali não é apenas desafiar uma regra. É instaurar outra lógica, outra leitura possível da cidade.

A decisão do Vasco de sustentar o discurso de inclusão e igualdade que culminaria na “Resposta Histórica” não pode ser compreendida apenas como um gesto ético ou progressista isolado. Ela também refletia um cálculo estratégico diante de um cenário esportivo em transformação. Enquanto os clubes da elite carioca, como Fluminense, Botafogo e Flamengo, preservavam seus espaços sociais fechados e dependiam do apoio financeiro das classes altas, o Vasco, limitado por receitas modestas e por uma base associativa formada em grande parte por trabalhadores e imigrantes, percebeu no futebol popular um caminho para ampliar sua sustentação econômica. A aproximação com os jogadores e torcedores das camadas mais baixas funcionou como uma abertura de mercado: mais sócios significavam mais mensalidades, maior público nas festas e eventos do clube e, consequentemente, mais renda para um caixa que vivia à sombra dos rivais. Assim, ao romper com o padrão elitista e acolher aqueles que o sistema esportivo rejeitava, o Vasco também abria as portas para um público que até então era apenas espectador distante do espetáculo. O gesto, travestido de ideal, tinha no fundo o mesmo pragmatismo de quem sabia que, sem o povo, o clube não sobreviveria financeiramente, e, com ele, poderia enfim competir de igual para igual com as potências da Zona Sul.

Enquanto o clube da Cruz de Malta abraçava o povo e construía o maior estádio da América do Sul com doações de trabalhadores, os outros três grandes reforçavam a moldura elitista que carregavam desde a fundação. As identidades se cristalizam. O Fluminense como clube da aristocracia. O Botafogo como espaço de intelectuais e rebeldes. O Flamengo como entidade híbrida, nascido da colônia portuguesa mas deslocando-se, ao longo das décadas, para uma relação íntima com a favela, principalmente após a instalação na Praia do Pinto. 

No meio século seguinte, quando o Brasil mergulha na ditadura militar, o futebol carioca se torna ferramenta de propaganda, palco onde a elite política tenta construir sua narrativa de estabilidade. O regime se aproxima do Flamengo, usa a popularidade rubro negra como vitrine, fotografa presidentes ao lado de jogadores, pinta estádios com slogans de segurança e ordem. A Confederação Brasileira de Desportos é controlada por militares e os clubes, dependentes de verbas públicas, evitam confronto. Mesmo assim, as fissuras surgem. João Saldanha é afastado da seleção por suas ligações comunistas. Afonsinho e Paulo César Caju, ambos do Botafogo, encarnam a resistência estética e cultural ao exibirem cabelos e barbas que incomodavam o moralismo da época. No Fluminense, o dirigente Francisco Horta desafia decisões da confederação. Mas o peso institucional do regime suprime qualquer oposição mais ampla.

Nos anos oitenta, com a redemocratização, os clubes recuperam voz, mas não recuperam a inocência. As identidades sociais que haviam se formado décadas antes permanecem praticamente intactas. O Fluminense ainda carrega os ecos de sua aristocracia original. O Flamengo se consolida como clube de massa, reconhecido como expressão da favela e do subúrbio. O Botafogo reafirma sua vocação intelectual e boêmia. E o Vasco preserva seu caráter popular e sua memória de enfrentamento, invocando, sempre que necessário, a coragem de 24. Em 2025, quando o clube publica nas redes a frase ditadura nunca mais no aniversário do golpe, não cria nada novo. Apenas prolonga, no presente, a posição que escolheu ocupar no passado.

O futebol carioca é isso. Uma disputa por símbolos. Uma batalha por narrativas. Um campo onde a política se disfarça de paixão e a paixão revela a política. É também um espelho completo do Brasil. Porque o Brasil nunca coube em um só clube, em uma só ideologia, em uma só ideia de povo. Coube em quatro. Quatro histórias, quatro trajetórias, quatro maneiras distintas de entender quem somos. E cada torcedor, quando escolhe seu clube, escolhe também de que lado da história prefere olhar o país.


BOTAFOGO 


O historiador Gabriel Marinho dos Santos, 34 anos, pesquisador do Botafogo e autor em preparação de um livro sobre o clube nos anos 1910, enxerga as figuras de João Saldanha, Afonsinho, Paulo César Caju e Ney Conceição como personagens que, antes de ganharem relevância política e moral, foram percebidos como problema dentro do próprio ambiente do futebol. Ele explica que, no calor dos anos 1960 e 70, o torcedor brasileiro reagia politicamente de forma muito semelhante ao que se vê hoje: “se o cara está jogando bem, ele pode falar de política; agora, se acontecer algum problema, o pessoal cai em cima e manda parar de falar de política”. A leitura dele é que o primeiro impacto da postura contestadora desses jogadores foi mais conflitivo do que heroico.

Quando o golpe de 1964 se consolidou, todo um processo de propaganda, manipulação econômica e desinformação ajudou parte significativa da população a acreditar, rapidamente, que a ruptura institucional havia sido “necessária”. Gabriel lembra do paralelo clássico com o Chile de Allende, quando a greve dos caminhoneiros e o desaparecimento de produtos foram revertidos “magicamente” após a ascensão de Pinochet. “A politização não era tão grande assim”, diz. Esse ambiente se refletiu no futebol. E, no caso do Botafogo, coincidiu com um período de jejum estadual entre 1964 e 1966, o que acentuou a rejeição a vozes críticas dentro do clube. “Sempre quando você tem alguma dificuldade, o cara é visto como um problema”.


Gabriel Marinho dos Santos, 34 anos, pesquisador do Botafogo


O episódio do gesto de Paulo César Caju em 1971 — o punho erguido inspirado nos Panteras Negras — é emblemático dessa tensão. Depois da foto histórica, jogadores afirmaram que passaram a apanhar mais em campo e que a arbitragem deixara de proteger o Botafogo. O próprio Caju reclamava disso, mas também havia quem o acusasse de “jogar de forma displicente”. Para Gabriel, isso mostra como, no Brasil, “quando se fala muito de política no meio do negócio, a torcida começa a procurar aí o problema pra reclamar”. E ele reforça: essa reação não é nova; ela apenas muda de personagem com o tempo.



  • Afonsinho Paulo César Caju e Nei Conceição figuração que inspirou o documentário Barba Cabelo e Bigode sobre resistência no futebol.


O pós-ditadura não produziu imediatamente um reconhecimento profundo dessas histórias dentro do próprio Botafogo. Diferentemente da Argentina, o Brasil não levou militares ao banco dos réus, tampouco enfrentou de imediato o passado autoritário. “Não há debate forte dentro dos clubes”, resume. O resgate da memória botafoguense ligada à resistência é, portanto, recente. Documentários como Barba, Cabelo e Bigode, de Lúcio Branco, tiveram papel central ao apresentar Afonsinho, Caju e Ney Conceição em profundidade. A redescoberta da trajetória de João Saldanha — sobretudo em relação à Copa de 1970 — completou o ciclo, reacendendo a discussão dentro da torcida.


Nesse processo, a figura de cada um desses jogadores ganhou significado simbólico distinto. “O Paulo César batia muito na questão racial; o Afonsinho era praticamente um sindicalista do futebol; o Ney Conceição era um cara mais artístico, ligado aos Novos Baianos.” Cada um representava, de um modo próprio, um gesto contra a ordem estabelecida — mesmo que, na época, isso não fosse percebido como virtude. Hoje, o torcedor se apropria desses personagens como bandeiras. Mesmo que Paulo César Caju tenha assumido posições políticas mais alinhadas à direita nos últimos anos, isso é relevado pela massa alvinegra. O que fica é a simbologia de quem um dia ergueu o punho com a camisa do Botafogo.

Gabriel também observa que a resistência dentro do clube não se limitou aos jogadores. A vida política botafoguense dos anos 1980, por exemplo, marcou um movimento de ruptura com a herança autoritária deixada pelo então presidente biônico Carlos Augusto Montenegro Boré — chamado por ele de alguém que “arrebentou com o Botafogo”. Militantes de esquerda como André Barros e Ricardo Rottenberg articularam, nesse período, uma reação interna em busca de reabertura democrática. Barros viria a se tornar figura pública ligada ao PSOL e à Marcha da Maconha; Rottenberg, ao brizolismo. Ambos simbolizam uma virada política dentro do clube.

Outro episódio marcante envolve a sede do Botafogo, invadida pelo DOPS quando estudantes da UFRJ, fugindo da repressão na Praia Vermelha, buscaram abrigo no clube. O então presidente Ademar Lutza de Castilho fechou o local, mas ainda assim teve de lidar com a invasão dos agentes. Para Gabriel, o mais curioso — e simbólico — é que o ano de 1989, quando o Brasil volta a votar para presidente de forma direta, é o mesmo em que o Botafogo encerra a fila de 21 anos sem títulos. “Começa com o AI-5 e termina com as eleições”, diz. Para ele, essa coincidência alimenta a mística do clube: “o botafoguense é muito místico, muito ligado ao número 7, ao número 21. Essas coincidências ajudam a torcida a abraçar essas questões políticas e de memória do país.”

O pesquisador reforça que a resistência simbólica do Botafogo não se consolidou plenamente no momento em que os fatos ocorreram. A censura, o tamanho reduzido da torcida e o contexto repressivo limitaram a força das manifestações. “No momento em si, não tem tanta força quanto tem agora”, diz. Com o passar das décadas, porém, a imagem desses personagens cresce, ganha força e se torna parte do imaginário alvinegro — um fenômeno que ele compara aos estudos do sociólogo francês Maurice Halbwachs sobre a memória da resistência francesa contra os nazistas. Quanto mais o tempo passa, mais pessoas “lembram” de episódios que reforçam uma narrativa de resistência.

Para Gabriel, recuperar memórias de enfrentamento no futebol é saudável — não como disputa para demonizar o adversário, mas como forma de compreender o papel do esporte na formação da identidade coletiva brasileira. Ele entende que todo clube tenta exaltar seu “lado ético e moral”, mas que o centro da discussão deve estar na luta e na atuação positiva do próprio time, não na demonização do rival. O futebol, nesse sentido, funciona como porta de entrada para que torcedores — muitas vezes pouco politizados — se conectem com debates históricos mais amplos, especialmente quando reconhecem que as brigas, tensões e resistências de ontem dizem muito sobre o país de hoje.


FLAMENGO 


Falar do Flamengo é lidar com um país inteiro comprimido dentro de um clube. É observar como um time que nasceu no remo, e se espalhou pelas linhas de trem da zona norte encontrou, ao longo do século vinte, a imagem perfeita de um Brasil que, por bem ou por mal, buscava uma identidade nacional. Salino Coimbra, pesquisador independente e especialista em história do Flamengo, é uma das vozes mais atentas ao entrelaçamento entre memória popular, identidade política e construção social do clube. Integrante de movimentos rubro negros ligados ao debate público e à defesa da memória histórica, ele se dedica há anos ao estudo das raízes políticas que moldaram o Flamengo dentro e fora do campo. Dele partem as reflexões centrais que orientam esta análise sobre as relações entre o clube, o Brasil e o povo que o transformou em fenômeno.


Foto institucional da torcida rubro negra no Maracanã (décadas médias do século XX)
Foto institucional da torcida rubro negra no Maracanã (décadas médias do século XX)

Quando Salino recupera a tese de Renato Coutinho, historiador formado pela Universidade Federal Fluminense e autor de “Um Flamengo Grande, um Brasil Maior”, ele destaca um ponto decisivo: o Flamengo não se tornou um clube de massa apenas pelo brilho esportivo, mas pela capacidade de se alinhar, com precisão e inteligência, ao projeto nacional popular do trabalhismo de Getúlio Vargas. Coutinho identifica que, no momento em que o país tentava construir uma identidade simbólica — da criação da camisa canarinho aos concursos escolares de hinos e uniformes — o Flamengo colou sua imagem a esse imaginário e cresceu junto com ele. Salino considera essa interpretação a mais sólida para explicar a virada histórica do clube.

Gilberto Cardoso, presidente do Flamengo e figura conhecida como São Negão, surge como protagonista desse alinhamento. Sua habilidade política se encaixou no contexto de um Estado que buscava modernizar o país e unificar o povo em torno de símbolos comuns. O Flamengo, atento a essa onda nacionalista e com raízes já consolidadas no remo e no futebol, ampliou sua identidade popular e se colocou como clube capaz de falar com as classes trabalhadoras do Rio. 

Mas essa história política também passa por rupturas profundas, e poucas são tão contundentes quanto a de Stuart Angel. Atleta notável, remador talentoso e militante de esquerda assassinado pela ditadura, Stuart é para Salino Coimbra a síntese da luta de classes que atravessa o Brasil. Ele destaca que Stuart não usou o esporte como fachada para sua militância, como versões fantasiosas chegaram a sugerir. Foi um competidor genuíno, apaixonado pelo remo, esporte que deu origem ao próprio Flamengo. Stuart se tornou revolucionário porque acreditava numa sociedade mais justa, e não porque havia um plano oculto no ambiente esportivo.


  • Stuart Angel CPDOC FGV / Arquivo Nacional / Museu do Futebol que preservam registros sobre Stuart e sua memória.



O apagamento de sua memória, no entanto, diz muito sobre o país. A retirada da homenagem a Stuart na garagem de remo durante a Copa do Mundo expõe a disputa ideológica ainda presente no Flamengo. Para Salino, é incompreensível que homenagear um atleta do clube seja tratado como questão polêmica. A resistência em recuperar sua memória revela como setores do país ainda temem confrontar as feridas da ditadura e preferem suavizar o passado em vez de explicá-lo.

Se a memória institucional hesita, as arquibancadas resistem. Para Salino Coimbra, as torcidas organizadas são expressões vivas da classe trabalhadora. A imagem do Maracanã antigo — a massa rubro negra descendo do trem, vindo da Zona Norte e dos subúrbios — é o retrato mais puro do povo que moldou o Flamengo. O ato de torcer virou identidade social. A Charanga de Jaime de Carvalho transformou os estádios, ao abandonar o traje formal e adotar o manto rubro negro como roupa do torcedor comum. A Raça Rubro Negra iniciou a cultura dos noventa minutos de apoio constante, e a Torcida Jovem incorporou em sua estética símbolos das lutas anti imperialistas do fim do século XX.



  • Jaime de Carvalho e a Charanga contribuíram para popularizar o manto rubro negro entre o público do Rio.


Cada uma delas revela um pedaço do país. A Raça, com raízes em sindicalistas e no vermelho da luta. A Jovem, que incorporou narrativas e símbolos de conflitos internacionais para expressar um espírito de resistência, referências ao Irã, ao Iraque, ao Afeganistão, à Palestina, Cuba, todas utilizadas como metáforas de luta contra opressões diversas. Todas elas, no entanto, carregam as cicatrizes deixadas pela ditadura, que destruiu quadros populares, desorganizou a militância e enfraqueceu a formação política das massas. Esse processo afetou diretamente a capacidade crítica das torcidas, tornando as arquibancadas mais suscetíveis à desinformação e menos preparadas para compreender o papel social que sempre tiveram.

É justamente nessa lacuna que se enxerga o papel político das organizadas no século XXI: retomar o movimento de massa, reconstruir pensamento crítico e devolver ao povo a consciência de classe que lhe foi arrancada em décadas de repressão e abandono educacional.


Salino Coimbra reconhece que o Flamengo permanece um clube verdadeiramente popular, mas percebe uma contradição crescente entre essa identidade histórica e a forma como o clube é administrado hoje. Ele observa uma tentativa ainda discreta de recuperar a imagem do “time do povo”, com vídeos institucionais que mostram trabalhadores de comunidades, mototaxistas, padeiros e rostos que representam o Brasil real. Contudo, afirma que esse esforço é insuficiente diante da formação social de sua elite dirigente, composta majoritariamente por representantes da burguesia e pequena burguesia, classes distantes da vivência histórica da torcida rubro negra.

Para ele, Flamengo e sociedade seguem atravessando o mesmo fenômeno: deseducação estrutural, queda nos níveis de leitura, desinformação em massa e aceleração tecnológica que torna cada vez mais difícil a construção de pensamento crítico. Da revolução tecnológica dos anos setenta à era da inteligência artificial, o que se perde é justamente o que sustentou o Flamengo popular por décadas: consciência, organização e pertencimento social.

Por isso, na visão de Salino, as torcidas organizadas não podem ser apenas torcidas. Devem ser agentes de formação política, guardiãs de memória e instrumentos de emancipação popular. É nas arquibancadas, diz ele, que ainda pulsa o Brasil que resiste.


VASCO DA GAMA


A história do Clube de Regatas Vasco da Gama começa muito antes de qualquer chute, gol ou título. Ela nasce no atrito entre diferentes projetos de país, num Rio de Janeiro que ainda tentava se reinventar como capital moderna enquanto empurrava para a margem aqueles que não cabiam no ideal de elite que comandava o esporte da época. Quando Bruno Pagano, historiador e pesquisador dedicado à trajetória vascaína, fala sobre a resposta de 1924, sua voz carrega não apenas a precisão do estudo, mas a clareza de quem entende que aquele episódio moldou para sempre a identidade política e social do clube. Ele descreve o gesto não como um ato isolado, mas como uma fratura que reorganizou o futebol carioca.


Bruno Pagano, historiador e pesquisador dedicado à trajetória vascaína


Pagano explica que, na prática, o Vasco pagou um preço alto pela ousadia de recusar a expulsão de sete de seus jogadores considerados indesejados pelas exigências raciais e sociais da AMEA, a associação elitista que pretendia reordenar o futebol da cidade. O clube viu portas se fecharem e exigências surgirem com a força de decretos não escritos. Para voltar a competir entre os chamados grandes, teria de construir sua própria praça de esportes, algo que, naquele contexto, beirava o impossível. O impossível, porém, sempre pareceu seduzir o Vasco. A campanha de arrecadação entre torcedores surpreendeu até os mais céticos, e os tijolos erguidos com doações ergueram mais que um estádio. Ergueu-se São Januário, à época o maior da América do Sul, uma praça monumental que abrigava o sonho concreto de um clube que se recusava a ser menos do que acreditava ser.

Ao longo das décadas, explica o historiador, essa postura enfrentou novas barreiras e novas resoluções das federações, sempre tentando enquadrar ou limitar um clube que não se encaixava na lógica aristocrática que dava sustentação ao futebol carioca. Era como se os dirigentes da época tentassem, em vão, repetir a mesma tentativa de filtragem social que o episódio de 24 havia simbolizado. Mas o Vasco insistia. Quando trouxe atletas das camadas populares, quando sustentou que seus jogadores eram sócios e patrimônios do clube como qualquer outro, quando defendeu que não poderiam ser atacados por raça, por classe, por nacionalidade, o clube desafiava não apenas regras esportivas, mas um modelo de sociedade. A xenofobia contra os portugueses, que cresceu após a Semana de Arte Moderna e seu nacionalismo inflamado, também atravessou o ambiente esportivo e encontrou no Vasco uma trincheira inesperada.


Construção do Estádio de São Januário, 1927. Acervo: Família Campos.


Entretanto, Pagano faz questão de alertar para o risco do anacronismo. Ele lembra que não existia à época o vocabulário que hoje usamos, não se falava em luta antirracista nos termos atuais, não se defendia direitos civis com a linguagem política que só viria décadas depois. A teoria, portanto, não acompanhou imediatamente a prática. O Vasco só viria a assumir esse discurso como parte central de sua identidade a partir dos anos cinquenta e sessenta, momento em que o mundo também despertava para debates mais amplos sobre raça e direitos. Foi quando figuras como Jesse Owens desafiaram o nazismo em Berlim, quando símbolos internacionais começaram a tensionar a compreensão sobre desigualdade, que a memória vascaína de vinte e quatro ganhou nova interpretação. Não foi o gesto que mudou; foi o mundo que finalmente conseguiu enxergar o que estava ali.


Essa relação entre clube e política também aparece quando Pagano aborda o período da ditadura militar brasileira. Ele é direto ao afirmar que, entre sessenta e quatro e oitenta e cinco, o Vasco não teve um grande episódio de enfrentamento ao regime como tiveram outras instituições esportivas. O Corinthians com a Democracia Corintiana e o Botafogo com seus episódios de resistência tiveram protagonismo maior naquele contexto. A repressão, segundo o historiador, limitava profundamente o espaço de ação dos clubes cariocas. No entanto, ao voltar algumas décadas, Pagano resgata um capítulo pouco lembrado e talvez mais emblemático da história vascaína: sua relação com Getúlio Vargas e com a esquerda brasileira.


São Januário foi palco de anúncios fundamentais da era Vargas, incluindo a criação da Justiça do Trabalho e do salário mínimo. Mas a relação política que parecia alinhada se rompeu quando o governo varguista se distanciou das correntes socialistas e perseguiu seus líderes. O episódio mais marcante, conta Pagano, foi a postura do Vasco diante da prisão de Luiz Carlos Prestes. Quando o líder comunista foi libertado em mil novecentos e quarenta e cinco, o clube decidiu que, se Vargas havia falado em seus microfones e sob sua arquibancada, Prestes também deveria ter espaço para se dirigir ao povo. Era um gesto de coerência interna, mas também um desafio político num país dividido.


O comício reuniu cem mil pessoas e custou o cargo do presidente vascaíno à época, Castro Filho, que bancou o evento enfrentando resistências dentro do próprio conselho. Essa imagem de um clube que abre suas portas para diferentes vozes políticas, sustentando a pluralidade mesmo quando isso ameaça sua estrutura interna, reforça a percepção de que o Vasco dialoga historicamente com correntes progressistas. Pagano evita rotular o clube em um espectro político rígido, mas afirma que a identidade vascaína parece pendular para o progressismo, para o centro esquerda, para a defesa de causas igualitárias que atravessam sua história esportiva.


Essa identidade, no entanto, não está presa ao passado. O pesquisador destaca que o Vasco continua influenciado pela sua origem popular e operária, mas também se reinventa ao incorporar pautas contemporâneas que não eram tradicionalmente suas. A defesa dos direitos da população LGBT e especialmente da população trans, por exemplo, tornou-se bandeira recente. Ao lançar camisas com a cruz pintada com as cores do arco-íris, o clube propôs uma mudança profunda num ambiente cultural ainda marcado por machismo, hostilidade e preconceito. Pagano reconhece que houve resistência interna, como ocorre em qualquer clube, mas destaca a coragem institucional do Vasco em não fugir do debate, em colocar o tema dentro de seu conselho, em enfrentar a disputa simbólica que se trava no campo e fora dele.


Para o historiador, o maior risco do clube é cair na inércia e viver de glórias passadas. A resposta histórica, diz ele, não pode ser transformada em escudo para justificar a ausência de ação no presente. O Vasco tem uma responsabilidade com sua própria trajetória, uma obrigação moral com os vascaínos do passado que enfrentaram condições muito mais difíceis para defender os mesmos princípios. Por isso, afirma que o clube ainda é uma voz progressista relevante no futebol brasileiro contemporâneo, não porque reivindica esse título, mas porque trabalha para mantê-lo vivo.


  • Trecho da Resposta Histórica do Vasco 7 de abril de 1924, documento símbolo da recusa do clube às exigências elitistas da liga.



O legado dessa trajetória aparece também nas torcidas, e talvez seja nelas onde ele pulsa com mais força. Pagano relata que, apesar da imagem pública consolidada e da atuação institucional que se esforça para acompanhar o tempo, é sobre os torcedores que recai a tarefa de preservar a história como um elemento vivo. O orgulho vascaíno pela própria origem não é retórico, é partilhado nas ruas, nas arquibancadas, nas redes sociais. É ele que sustenta o engajamento mesmo quando o desempenho esportivo se distancia do passado glorioso. A identidade do torcedor não está ancorada apenas em títulos, mas numa concepção de clube como agente social. E, por vezes, esse sentimento ultrapassa até as fronteiras internas da política brasileira.


O historiador narra episódios em que torcedores de direita, até mesmo da extrema direita, que jamais defenderiam publicamente pautas como antirracismo ou combate à transfobia, reproduzem discursos de defesa da história vascaína com naturalidade. É como se, ao falar de seu clube, vestissem outra identidade, maior que seus alinhamentos eleitorais e ideológicos. A história do Vasco, nesse caso, funciona como ponte, como linguagem comum que supera as disputas do país. A identidade clubística, afirma Pagano, é um dos pilares da identidade cultural brasileira. Todo cidadão, de alguma forma, se conecta a um clube. E, no caso do Vasco, essa conexão ultrapassa o campo, ultrapassa a política e se transforma em pertencimento.


A vida vascaína, assim, parece sempre atravessada por uma mesma pergunta: o que significa ser um clube popular num país que vive em disputa permanente sobre seus próprios valores? A resposta não está apenas em vinte e quatro, nem apenas em São Januário, nem apenas nos comícios que sacudiram a política nacional. Ela está no presente, nas camisas lançadas, nas brigas internas, nas discussões públicas, na torcida que insiste em olhar para trás para seguir avançando. O Vasco não vive de nostalgia, como alerta o historiador, mas de compromisso. Um compromisso com a própria coragem, com a memória de seus jogadores e torcedores anônimos, com a força daqueles que ergueram um estádio inteiro com as próprias mãos para provar um ponto que o Brasil demorou a entender.

Se existe algo que permanece na identidade vascaína, é a recusa à neutralidade. O Vasco escolheu, em diferentes momentos da história, não se encolher diante do que era mais forte. Não se rendeu à pressão aristocrática em vinte e quatro. Não se calou diante dos rompimentos políticos da era Vargas. Não fugiu de debates atuais sobre igualdade e direitos. E não deixou que a falta de títulos recentes apagasse sua relevância cultural.

Ao contrário: transformou essa relevância em escudo e espelho. Escudo para resistir. Espelho para se olhar e perceber que, enquanto houver injustiça no futebol e na sociedade, ainda haverá algo para o clube dizer


FLUMINENSE


O Fluminense possui uma longa trajetória de engajamento cívico e autonomia política dentro do futebol. Nos anos 1940, por exemplo, o clube carioca mobilizou seus sócios para comprar um avião monomotor (“Coelho Netto”) e doá-lo à Força Expedicionária Brasileira – gesto em oposição aberta aos regimes nazifascistas da época . Durante a ditadura militar, a torcida tricolor também mostrou seu viés democrático: em 1984, na final do Campeonato Brasileiro contra o Vasco, colorados e vascaínos juntos entoaram cantos por eleições diretas (“1, 2, 3, 4, 5 mil, queremos eleger o presidente do Brasil!”) . Ao mesmo tempo, o Fluminense carrega orgulho em sua própria história interna de superação. O apelido “pó-de-arroz”, originado em 1914 de um xingamento racista contra o primeiro jogador negro do clube (Carlos Alberto), foi adotado pela torcida como símbolo identitário e de resistência – um insulto transformado em tradição do “Time de Todos”.


Time do Fluminense em 1910 já contava com negros no elenco — Foto: Divulgação


CONCLUSÃO


Os quatro grandes clubes do Rio de Janeiro refletem diferentes tensões sociais e políticas do Brasil. Mesmo em tempos autoritários, seus estádios foram palco de solidariedade e protesto civil: em 1968, estudantes perseguindos pelo regime militar buscaram refúgio na sede do Botafogo, que acabou invadida por forças de repressão . Décadas depois, no aniversário do golpe de 1964, clubes como Vasco e Botafogo emitiram publicamente mensagens de “ditadura nunca mais”, marcando posição em defesa da democracia . Esses episódios reforçam que o futebol carioca não esteve alheio à ditadura ou ao Estado Novo; ao contrário, clubes e torcidas se inseriram ativamente no contexto político, ora como agentes de resistência ora como símbolos dos valores de sua época. No fim das contas, as histórias de Flamengo, Vasco, Botafogo e Fluminense evidenciam como o esporte se entrelaça com a sociedade, servindo tanto à diversão das massas quanto à expressão de pautas sociais e políticas em momentos


Por: Mario Freire e Fábia Anselmo

 
 
 

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