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Era da Releitura: Por que o passado voltou ao centro da cultura pop

  • Foto do escritor: Alunos UVA
    Alunos UVA
  • 1 de dez. de 2025
  • 6 min de leitura

Remakes, vinis, turnês nostálgicas e estéticas retrô mostram como a memória afetiva virou tendência entre jovens e movimenta o mercado.


Por Giulia Karol e Isabella Mattos


Em um mundo acelerado por algoritmos, excesso de informação e mudanças tecnológicas a todo instante, o passado ocupa um lugar de destaque. De remakes e reboots que dominam o streaming a turnês nostálgicas que atraem multidões, câmeras analógicas e discos de vinil, esse movimento tem ganhado força na busca por conforto emocional, por pertencimento ou fuga da atualidade.


Esse retorno não se traduz apenas na estética, mas em um desejo profundo de reencontrar sensações, sentimentos e afetos que muitos jovens sequer viveram. A nostalgia, que antes era vista como algo saudosista e distante, agora é consumida, compartilhada e reinterpretada por novos formatos.


Nostalgia e Moda na Geração Z


A relação entre nostalgia e moda fica clara quando o comportamento de jovens em brechós, lojas de vinil e eventos temáticos é analisado. Looks dos anos 2000, calças largas, makes coloridas e festas fantasias com personagens clássicos estão presentes nos guarda-roupas da Geração Z.


Para Luciana Mallon, proprietária de um brechó virtual e especialista em Vesteterapia, a estética do passado não é só uma tendência, é símbolo de identidade em uma época tão padronizada. Ela explica que percebe, entre os jovens que buscam peças de roupas, uma busca ativa por referências familiares, além de ser também uma forma de buscar originalidade num mundo onde a inteligência artificial tenta padronizar tudo.

"Vestir moda nostálgica é buscar sentimento", afirma Luciana.


A Geração Z cresceu com o mundo inteiro em seus celulares, o que segundo os especialistas gerou  uma carência de conexões emocionais mais profundas. Nesse contexto, a moda de décadas anteriores ganha importância, funcionando como uma ponte afetiva. Luciana complementa, “O interesse pelo passado é uma resposta para esse mundo digital, onde tudo acontece rápido e as emoções se tornam efêmeras. Uma roupa antiga traz conforto emocional porque foi capaz de durar tantos anos. Essa geração não busca sentimentos passageiros, e sim emoções duradouras.”


É o caso de Tais Lyrio, de 23 anos, que compra peças em brechós e lojas de roupas retrô. Para a estudante, cada roupa carrega história e um valor emocional, funcionando como uma forma de se reconectar com suas raízes e sensações que as tendências rápidas do mundo digital não conseguem proporcionar. “Quando visto uma peça antiga, sinto que faço parte de algo maior. Não é só tendência para mim, é uma maneira de me sentir mais conectada comigo mesma e com minhas referências”, conta Taís.


( Reprodução : Arquivo Pessoal )
( Reprodução : Arquivo Pessoal )

Esse desejo por experiências com significado se expressa também em festas temáticas. Para a universitária de estética e cosmética, Tamires Claudino, de 25 anos, os anos 2000 se tornaram o tema de seu aniversário, "Fazer uma festa anos 2000 foi quase uma forma de revisitar um passado que, de certa forma, também me pertence. Eu queria trazer de volta essa vibe mais colorida e até meio cafona para reunir meus amigos e criar memórias novas a partir de algo que parece familiar."


( Reprodução: Arquivo Pessoal )
( Reprodução: Arquivo Pessoal )

Saturação Tecnológica e Solidão

Especialistas apontam que a intensa saturação tecnológica é um fator chave no movimento nostálgico. Segundo estudo da The Epidemic of Loneliness 2025 , tanto o uso passivo quanto ativo de redes sociais está associado ao aumento da solidão, pois não substitui o convívio presencial.


Cristine Pombo, psicóloga clínica reichiana, explica que o consumo de remakes e nostalgia está ligado à busca por experiências com alma e emoção, algo que a tecnologia moderna não oferece. “Entre a tecnologia robótica, a não humana e a humana, ainda se escolhe a humana, porque é a tecnologia que tem vida, que tem espírito, que tem alma. O olhar se volta para o passado, em busca de valores atemporais e experiências com essência”, afirma a psicóloga.


O psicólogo Rafael Verdolin, especialista em redes sociais, aponta que crescer cercado de tecnologia pode ser um dos motivos desse movimento, junto com o anseio social por um tempo em que estar conectado o tempo todo não era a regra.

“As relações pareciam mais ‘reais’. Mesmo que isso também seja idealizado, é uma percepção muito presente entre os jovens. Essa busca por referências antigas pode vir justamente dessa sensação de saturação tecnológica. E tende a aumentar”, analisa Rafael.


A Nostalgia como Experiência e Fuga

Esse desejo por desconexão se manifesta em vivências, como a de Victor Lucas Dos Anjos, de 23 anos, fã da banda One Direction, que encontrou nas festas temáticas uma forma de reviver algo que marcou sua adolescência e que não existe mais.


“A nostalgia é tudo isso, conforto, diversão, uma fuga do presente para um tempo onde as coisas pareciam mais simples. Acho que a gente fica tanto no celular que a gente só vive o passado, quando a gente já está no futuro, e aí começamos a lembrar de como era viver aquela época da vida”, confessa Victor. Ele reflete que hoje há tanta gente disputando nossa atenção online que se torna difícil viver o presente. “Podemos escolher viver como antigamente em alguns aspectos, mas é difícil 100%. Acho que devemos aproveitar o presente, porque um dia isso vai ser saudade.” afirma Victor.


 Mercado da Nostalgia


O interesse pelo passado é também um motor econômico. A questão dos remakes e reboots vai além do indivíduo e envolve a lógica da indústria cultural, como para o cinema, por exemplo, são investimentos seguros, pois existe uma nostalgia já estabelecida.

Segundo dados compilados pelo portal Statista, os remakes de maior bilheteria de todos os tempos incluem O Rei Leão (2019), com $1,66 bilhão, seguido por Bela e Fera (2017), com $1,27 bilhão.


Rafael Verdolin vê isso como uma capitalização eficiente sobre o passado. “O material original já existe, é familiar, é estável. A indústria sabe que funciona. Tudo que é familiar transmite estabilidade. Assistir sempre às mesmas coisas, revisitar as mesmas histórias, permanecer no mesmo universo estético, e tudo isso evita o desconforto do novo.”


O poder da memória afetiva no consumo é inegável. Um estudo PiniOn da aponta que 56,8% dos brasileiros já realizaram compras motivadas por lembranças antigas, e 45% se sentem mais motivados a comprar quando marcas exploram elementos do passado.


Música e Conexão Emocional


Na música, o fenômeno se manifesta em turnês como a "Jonas20: Greetings From Your Hometown", realizada em 2025. O encontro com os fãs foi marcado por uma forte carga de nostalgia, lembrando ao público momentos e sentimentos daquela época.

“Muitas pessoas que foram aos shows agora foram justamente porque lembravam da época de infância, e acabaram voltando a acompanhar os Jonas por causa dessa conexão emocional”, afirma a jornalista e fã da banda, Alinne Torre.


( Reprodução: Arquivo Pessoal )
( Reprodução: Arquivo Pessoal )

Mesmo em nichos menores, o sentimento gera mercado. A banda Nostalgic, fundada em 2018, toca sucessos dos anos 90 e 2000 por afinidade e pelo forte sentimento de nostalgia, especialmente marcada pela influência da novela Malhação. O guitarrista Gabriel Pinheiro considera esse período uma das últimas grandes eras do rock.


( Reprodução : Arquivo Pessoal )
( Reprodução : Arquivo Pessoal )

A onda de nostalgia que leva jovens aos brechós e lota turnês retrô também está mexendo com o consumo de mídia. Mesmo com toda a praticidade do streaming, a Geração Z tem abraçado o físico e o analógico, resgatando objetos que, até pouco tempo atrás, eram considerados ultrapassados, como CDs, câmeras digitais e vinis.


A história da universitária Fernanda Coelho, de 21 anos, ajuda a entender esse movimento. Em um sebo, ela encontrou um CD antigo da Avril Lavigne. “Quando coloquei pra tocar, senti como se estivesse segurando um pedaço do passado. Cada CD parecia ter uma história, uma energia diferente”, lembra.


O comportamento dela não é isolado. No Centro do Rio, Daniel Dantas, vendedor há quase duas décadas da loja “Pequeno Mundo dos CDs”, vê essa mudança de perto. “Quando comecei, eram colecionadores mais velhos. Hoje, quem entra são garotos de 18, 20, 25 anos, empolgados, perguntando sobre álbuns dos anos 2000 como se fossem lançamentos.”


( Reprodução: Isabella Mattos )
( Reprodução: Isabella Mattos )

Nas redes sociais, a estética dos anos 2000 ganha ainda mais força. A blogueira Luiza Tardin assume que foi moldada por Rouge, Spice Girls, Britney, Hilary Duff e Avril, e que o resgate de visuais como o exagero, brilho e texturas é também uma reação ao minimalismo que domina as tendências atuais. “A gente revisita, mas critica. Vê os romances problemáticos, os padrões irreais, e ainda assim sente aquele carinho por tudo aquilo”, pondera Luiza.

O Lado Emocional da Nostalgia


Apesar dos benefícios emocionais, Rafael Verdolin lembra que é preciso ter cuidado ao revisitar o passado. “A nostalgia faz parte do ser humano, mas também pode nos prender a um passado que nem sempre foi tão bom quanto lembramos. Muitas vezes, estamos em períodos difíceis atualmente e acabamos romantizando o passado.”


Ele alerta que se ficamos presos demais ao passado, transformamos aquele momento em um centro gravitacional, girando sempre em torno dele, sem espaço para criar novas lembranças ou aproveitar o agora. Ainda assim, ele ressalta que olhar para trás ajuda a entender quem somos e a construir mais equilíbrio no presente.


Nesse encontro entre memória e reinvenção, a nostalgia acaba funcionando como um respiro. Um espaço onde muitos jovens encontram afeto, identidade e uma pausa do ritmo acelerado do agora.


Como resume Fernanda, de forma simples. “A nostalgia, para mim, não é sobre voltar no tempo. É sobre respirar.”




 
 
 

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