Entre ficção e realidade: o impacto social das telenovelas no Brasil
- Alunos UVA

- 1 de dez. de 2025
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Tramas se consolidam como espaços de reflexão que influenciam comportamentos e estimulam discussões públicas
Por Julia Fernandes e Maria Eduarda Marques

As telenovelas consolidaram-se como potentes agentes de transformação social, com uma capacidade singular de refletir e, ao mesmo tempo, influenciar comportamentos e debates fundamentais na sociedade. Ao longo das décadas, essas narrativas ficcionais têm ultrapassado a fronteira do mero entretenimento, atuando como verdadeiras plataformas culturais.
Ao abordar temas cruciais como a desigualdade social, a superação de preconceitos, os direitos humanos e a cidadania, as histórias contadas na tela dialogam diretamente com a realidade de quem assiste. Essa mistura entre a ficção e o cotidiano tem o poder de promover a conscientização e de estimular questionamentos profundos na base da sociedade.
O impacto da teledramaturgia na vida real é comprovado e historicamente mensurável. Uma pesquisa conduzida pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em 2009, trouxe dados sobre a influência do gênero no Brasil. O estudo revelou que, desde a década de 1970, o país assistiu a uma queda de mais de 60% nas taxas de fertilidade e a um aumento de cinco vezes nas taxas de divórcio.
Essas profundas mudanças demográficas e sociais foram diretamente associadas à popularização da televisão e, especificamente, à expansão da cobertura do sinal da Rede Globo, que, na época, alcançava mais de 80% dos lares brasileiros. O estudo destacou, ainda, que esse efeito de influência foi estatisticamente mais evidente entre mulheres de famílias de baixa renda, impactando de forma significativa suas decisões no planejamento familiar e no papel social que exercem.
O vínculo afetivo do público com o gênero reforça esse alcance. A estudante de publicidade Maria Vitória Sartori contou que as novelas são ponto de união familiar. “Passione marcou muito minha infância. A família inteira fez um bolão para adivinhar o final”, relembrou. Para ela, as narrativas conversam com o cotidiano ao retratar injustiças sociais e comportamentos comuns no país. Maria Vitória afirmou ter mudado atitudes após assistir Salve Jorge: “Passei a desconfiar de propostas milagrosas na internet. A novela mostrou como o tráfico de pessoas age de forma silenciosa.” Ela destacou ainda a importância das tramas que fortalecem a representatividade feminina, citando Beatriz, de Garota do Momento, como sua maior inspiração.
O jornalista Anderson Andrade reforçou o poder das novelas de criar identificação, mas destacou também o fascínio pelo elemento fantasioso. “A possibilidade de contar histórias que mexem com a imaginação é o que me encanta”, afirmou. Para ele, as novelas funcionam como um “grande fórum nacional”, que dramatiza a realidade e estimula debates. Andrade também ressaltou a relevância de temas de saúde levados à TV, como câncer e HIV, que, segundo ele, ajudam a reduzir estigmas. Entre os personagens mais impactantes, cita Paola Bracho e Félix, este último pela “vilania cômica que poucos conseguem atingir”.
Na fusão entre ficção e realidade, as tramas continuam a atuar como poderosos catalisadores que impulsionam mudanças sociais e alimentam o debate público.
Como tudo começou
A teledramaturgia brasileira surgiu quase ao mesmo tempo que o nascimento da televisão. Em 1951, a TV Tupi exibiu a considerada primeira telenovela brasileira, Sua Vida Me Pertence, escrita por Wálter Forster e Vida Alves. Era exibida ao vivo, com poucos capítulos e com forte influência das radionovelas. O modelo seguiu um formato experimental, mas abriu caminho para um dos produtos culturais mais fortes do país.
Nos anos 1960, as novelas começaram a ganhar identidade própria. O grande ponto de virada veio com Beto Rockfeller (1968), que abandonou a dramaturgia sentimental e aproximou as histórias da vida real, com personagens urbanos, linguagem coloquial e temas que dialogavam com o cotidiano. A partir dali, a novela passou a ser não apenas entretenimento, mas um espelho social.
Cristiane Costa, jornalista e doutora em Comunicação e Cultura pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), destacou que, para quem tem pouco acesso à literatura, a teledramaturgia cumpre essa função, tornando-se a forma de contato com a ficção e com histórias de outros personagens.
Com a ampliação da televisão e a profissionalização das emissoras, especialmente a partir dos anos 1970, as telenovelas se tornaram um fenômeno nacional. Elas passaram a discutir desigualdade, violência doméstica, preconceito, direitos e transformações familiares, pautando conversas dentro e fora de casa. Em muitos momentos, funcionaram como ferramenta de informação e como porta de entrada para debates que nem sempre chegavam aos meios formais.
“Desde as radionovelas e mesmo os folhetins seriados nos jornais, esse tipo de história ocupa espaço central na cultura brasileira. E não só aqui. Não é à toa que exportamos para vários países e importamos também novelas do México, da Coreia do Sul e da Turquia, por exemplo. Sem acesso ao cinema, literatura e teatro, é na telenovela que matamos nossa fome de ficção”, afirmou ela.
Assim, desde o início, as novelas brasileiras se consolidaram como um espaço onde ficção e realidade caminham juntas, refletindo o país, influenciando comportamentos e ajudando a moldar parte importante da cultura nacional.
Representatividade, responsabilidade e diálogo

A roteirista e autora de telenovelas da Rede Globo, Renata Sofia, comentou que as novelas têm enorme influência sobre o comportamento e o imaginário popular. Ela destacou a importância de olhar para o mundo diverso durante a construção do folhetim.
Sobre a representatividade, a autora explicou que enxerga de forma natural, pois a vida real é assim. Sofia ponderou que é prepotência afirmar que as novelas educam alguém, mas que seu trabalho é um misto de entender a sociedade e propor debates, levantando pautas e mostrando os pontos de vistas contraditórios. Para ela, o que se coloca na mesa é que "o diálogo é o caminho".
A roteirista afirmou que a opinião dos espectadores online não influencia as decisões criativas. "Não conheço nenhum autor que mudou sua história por causa de uma hashtag".
Ela considera que reagir unicamente às redes seria virar as costas para o resto do país. Olhando para o futuro, Renata enfatizou que as novelas iriam continuar, pois é um produto que as pessoas consomem juntas."Somos humanos, precisamos de uma fogueira pra sentar e volta", disse.
A visão de Renata Sofia sobre a necessidade de abordar a diversidade e fomentar o debate liga-se ao que Alexandre Santos, Gerente de Fomento e Desenvolvimento de Dramaturgia Longa da Rede Globo, considera o segredo da longevidade da telenovela no Brasil. Ele afirmou que o formato se diferencia por fomentar o debate, pois o público busca aprender com o que está assistindo.
Contudo, Santos frisou que a responsabilidade da emissora é gigantesca devido ao vasto alcance, sendo essencial que os temas sejam abordados com responsabilidade e sensibilidade. Ele concordou com Sofia que as redes sociais não representam o país em sua diversidade, e a decisão de mudança de roteiro não era motivada pela web, mas sim pelo equilíbrio de pesquisas quantitativas e qualitativas da empresa.
Santos detalhou que, em resposta a essas transformações, a Globo investe na representatividade, seja ela racial ou de gênero, no elenco de todas as novelas com intencionalidade. Ele comentou que antigamente, os autores não desenvolviam os personagens com essa profundidade e, também, não pensavam na necessidade de dar protagonismo a essas narrativas. No entanto, com o passar do tempo, notaram a urgência de dar voz às minorias e a pensar cuidadosamente no ator ou na atriz que interpretaria cada papel na trama.
Além disso, Alexandre revelou que a emissora adotou novos formatos como os microdramas para celular, inclusive, três novelas verticais estão sendo produzidas, uma delas será exibida ainda em dezembro deste ano. Apesar do ceticismo sobre o fim das novelas, ele garantiu que o melodrama é eterno.
A atuação diária que transforma realidades

A influência dos atores na teledramaturgia brasileira sempre foi determinante para aproximar o público das histórias exibidas na TV. No caso dos atores mirins, essa conexão costuma ser ainda mais intensa. JP Rufino, que iniciou sua carreira ainda na infância, faz parte dessa geração que aprendeu que o trabalho de um ator ultrapassa a ficção e dialoga diretamente com a vida real do telespectador.
Ele lembra com clareza o momento em que percebeu esse impacto: “Quando você percebe que está sendo reconhecido pelo trabalho pela primeira vez, é algo que te faz perceber ‘caramba eu tô atingindo as pessoas’, e toda vez que você é reconhecido esse sentimento fica cada vez mais forte de estar não só ‘tocando’ como, muitas das vezes, servindo de exemplo e assim transformando a maneira de agir e pensar daqueles que se identificam.” Esse reconhecimento reforça a responsabilidade de quem dá vida a personagens que podem inspirar, encorajar e até influenciar decisões reais.
O ator conta que sempre recebeu relatos de pessoas impactadas por suas interpretações. “Os personagens que vivi, recebi vários relatos de que em algum momento aconteceu essa inspiração e até alguma mudança. E isso é que faz entender que atuar não é estar ali ‘falando um texto decorado’. Mas sim transmitir de alma e viver real o personagem, sem forçação ou artifícios, entende!? Apenas realmente… ser! E fico emocionado e só solidifica cada vez mais o que amo fazer…”
Para Beatriz Saramago, atriz, cantora e dançarina, a força das novelas está na identificação que o público cria com os personagens e situações mostradas na TV. Segundo a atriz e cantora, as tramas acompanham as alegrias, dificuldades e conflitos da rotina do brasileiro comum, funcionando como um reflexo da realidade da sociedade brasileiro.
“Eu acho que o que causa essa identificação é justamente porque, principalmente as novelas, elas falam a nossa língua, né? Elas estão ali com uma função social mesmo, de mostrar o dia a dia de um brasileiro comum: as confusões que a gente tem dentro de casa, em família, no trabalho, na ida para o trabalho, no transporte público, os amores que dão certo e os que não dão certo. Elas estão no nosso momento de lazer, de descanso, às vezes de uma forma, claro, exagerada ou mais leve, porque é ficção para servir como um espelho para a gente”, explica.
Beatriz viveu recentemente um momento marcante: um fã mirim do seriado Detetives do Prédio Azul, no qual ela interpretou a personagem Filomena, a reconheceu em uma festa, e se emocionou. A situação destacou a influência que atores exercem sobre o público, principalmente o infantil.

Em muitas regiões, especialmente onde a TV aberta ainda é a principal fonte de informação, novelas desempenham um papel social relevante. JP destaca o peso da representatividade: “Muitas vezes jovens podem se sentir perdidos e até desmotivados sobre o futuro, e ligar a TV e ver alguém tendo a mesma narrativa de vida que você, lutando e, por exemplo, se tornando um advogado, pode te fazer sentir que ‘você também pode’ e que sua voz importa.”
A televisão brasileira sempre teve nas novelas um de seus principais pontos de contato com o público, ajudando a refletir sobre a rotina, os conflitos e as relações do país. Mesmo com a popularização das plataformas digitais, a teledramaturgia permanece presente no cotidiano de milhões de pessoas, mantendo seu papel social e de identificação. Nesse cenário, Beatriz afirma: “As novelas tiveram, e têm, um papel indispensável na construção da educação do Brasil desde o surgimento delas. Mesmo que hoje exista a impressão de que menos pessoas assistem novela, por causa do acesso à internet e às plataformas de streaming, ainda assim mais de 40 milhões de brasileiros param para ver novelas ao vivo todos os dias. Brasileiros que não têm acesso à internet ou não podem pagar por plataformas, e por isso encontram na novela um espaço muito democrático que, com uma linguagem simples, consegue ensinar às pessoas aquilo a que elas têm direito".
O poder das novelas além da ficção
As novelas influenciam diretamente nos comportamentos cotidianos, como a escolha de nomes para os filhos, refletindo o poder cultural da teledramaturgia. Dados do Censo Demográfico de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) confirmam essa influência: atualmente, existem 498 pessoas registradas com o nome Juma, em homenagem à protagonista da novela Pantanal, exibida na década de 1990 pela TV Manchete. Outro exemplo emblemático é o nome Jade, que ganhou popularidade após a novela O Clone ir ao ar em 2001. Atualmente, no Brasil, há 26.671 pessoas com esse nome.

Mônica Santos é um exemplo claro dessa influência: ela deu à filha o nome de Maria Eduarda em homenagem à personagem de Gabriela Duarte na novela Por Amor. A assessora comercial afirmou que, na época, a novela estava "em alta, e era um nome diferente do habitual". Mônica reconheceu a força da dramaturgia, afirmando que já se imaginou tomando atitudes inspiradas em tramas de novela, como procurar ajuda ou buscar seus direitos. Em sua visão, a "ficção e realidade atualmente andam bem próximas" e, desde 2004, as histórias são contadas "sem medos, e sem censuras," o que agrada o público.
Outro exemplo dessa influência é o estudante de jornalismo Átila Ribeiro. Ele teve seu nome escolhido por sua mãe em homenagem a um personagem de uma novela da década de 1990. Quando questionado sobre essa influência, ele afirmou que a sua própria história demonstra como as novelas impactam em decisões reais.
Átila comentou que, quando criança, não era fã da escolha do nome, mas que atualmente gosta. Ele explicou que a mãe se sentiu inspirada pelo nome, pois ele era imponente.
Sobre a influência da ficção em atitudes práticas, Átila já se imaginou tomando atitudes inspiradas por tramas de novelas. Na visão dele, a ficção ainda tem muita força para mobilizar as pessoas:
"Eu acho que a ficção não vai perder essa força nunca. A ficção ajuda, ela dá essas inspirações, ela também coloca a gente para pensar. E eu acho que pode fazer a gente se mobilizar para uma força maior".
Ele exemplificou o poder da mobilização citando a novela Três Graças, que abordou a questão de remédios genéricos falsificados e como isso pode influenciar as pessoas a denunciar ou a desconfiar da indústria farmacêutica.
Átila concluiu que a ficção é um instrumento poderoso para mobilizar, mas que a história precisa ter cuidado na forma como é veiculada, para não ser usada como uma massa de manobra. O estudante de jornalismo ainda ressaltou que, no entanto, as novelas atuais geralmente não são concebidas para serem enviesadas para um único lado.
A telenovela é, portanto, muito mais do que entretenimento. Ela é um espaço de representação, discussão e transformação social que dialoga e molda o imaginário, os valores e as ações de milhões de brasileiros, acompanhando e impulsionando as complexas mudanças da sociedade.




Boa matéria! Bem apurada, cuidadosa com o texto e com boas fontes! Parabéns pela dedicação ao texto e ao Jornalismo.