Criar um filho no Brasil pode custar até R$ 2,4 milhões para classe média
- Alunos UVA

- 24 de nov. de 2025
- 15 min de leitura
Atualizado: 30 de nov. de 2025
Projeção econômica revela o peso da educação e da moradia no orçamento familiar até os 23 anos
Por Raquel Costa e Caio da Silva

A rotina de Ticiana Gomes, 32 anos, é uma verdadeira maratona de trabalho. Estudante de Educação Física, trabalha em uma academia, e ainda complementa a renda como cabeleireira e maquiadora. A correria não é uma escolha, mas uma necessidade imposta pela vida na qual ela, recentemente, tornou-se protagonista principal: a maternidade solo.
Natural de Pacajus, no Ceará, Ticiana se mudou para Barbalha, no mesmo estado, buscando o que todo brasileiro sonha: melhores oportunidades. Motivada por um longo período de desemprego, veio com um bônus não planejado: a gravidez aos 31 anos. Hoje, ela é a única provedora de seu filho, dividindo a casa com a mãe e dois irmãos.
Este cenário de luta diária reflete a complexa realidade financeira do Brasil, onde a decisão de ter filhos é cada vez mais moldada por fatores econômicos. Um levantamento cuidadoso projeta os custos da criação até os 23 anos corrigidos pela inflação, revela que, para uma família classe média alta (classe B), o gasto total pode atingir R$ 2,4 milhões. O estudo, baseado em dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE, descreve o alto preço da educação e moradia nas grandes cidades, mostrando por que a maioria dos brasileiros vive sob o estresse de ter seus orçamentos consumidos pelas despesas essenciais. Essa pressão é agravada pela inflação de serviços, que é historicamente alta no Brasil. Além disso, a inflação afeta as famílias de forma desigual: dados recentes do Instituto de Pesquisa Econômica Ampliada (IPEA) mostram que o acúmulo da inflação nos últimos 12 meses é mais alto para as famílias de renda baixa (em torno de 5,37%) do que para as de renda alta (cerca de 5,02%), espremendo ainda mais o orçamento das classes menos favorecidas.
"O desafio de criar um filho é muito grande. Primeiro, não tenho a estrutura familiar de pai, mãe e filho para garantir o bem-estar psicológico da criança. Por mais que a família dê um suporte, nunca será igual", desabafa.
Mesmo trabalhando o triplo a renda não supre todas as necessidades. O custo de vida, a pressão por oferecer um futuro minimamente seguro e a sensação de estar sempre correndo atrás do prejuízo formam uma névoa densa sobre o planejamento familiar. A história de Ticiana não é apenas um retrato da garra da mulher brasileira; é um sintoma da complexa equação econômica que transformou o ato de ter filhos em um projeto de alto custo.
Um estudo detalhado calculando o custo total de criar uma criança até os 23 anos pode variar drasticamente conforme a faixa de renda, atingindo até R$ 2,4 milhões para famílias da classe B (que possuem renda mensal entre R$ 13,2 mil e R$ 26,4 mil).
O levantamento, construído com base em dados do IBGE, contextualiza o peso da inflação e do alto preço dos serviços. Para classe A cerca de 3,6 milhões. Já a faixa de renda B, o gasto mínimo é de R$ 1,2 milhão, e chega ao teto de R$ 2,4 milhões, dependendo do padrão de vida e da região. Na camada média da população C, a maior parte do orçamento é destinada a despesas básicas e essenciais, como alimentação e moradia, enquanto no segmento B, a educação privada de alto padrão e o lazer sofisticado elevam o valor final. Para as faixas de renda abaixo da C (Classes D e E, que sobrevivem com até dois salários-mínimos), o desafio se concentra na subsistência. Nesses lares, o orçamento é totalmente consumido por alimentação e transporte, não sendo contabilizado como um "custo de criação", mas sim um esforço diário para suprir o mínimo. A educação e a saúde tornam-se quase totalmente dependentes dos serviços públicos. Para entender como esse valor milionário se distribui no orçamento, o levantamento detalha os principais gastos da classe B. Fica evidente que a educação é o condutor de custo que mais pressiona o planejamento familiar, conforme ilustrado no gráfico abaixo.

Abaixo, veja a lista com todas as estimativas por classe, feita com dados do IBGE.
Classe A (renda mensal superior a R$ 26 mil): cerca de 3,6 milhões
Classe B (entre R$ 13.200,00 e R$ 26 mil): média entre 1 milhão e 2,4 milhões
Classe C (entre R$ 5.280,00 e R$ 13.200,00): média entre 480 mil e 1,2 milhão
Classe D (entre R$ 2.641,00 e R$ 5.280,00): média entre 239 mil e 479 mil
Classe E (renda máxima de R$ 2.640,00): cerca de 239 mil
2,4 milhões o assustou? Para sair das estimativas e saber o custo real familiar, criamos uma ferramenta que faz a conta na hora.
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É fácil de usar:
Insira seus gastos mensais com a criança (escola, plano de saúde, transporte, lazer, etc.).
Adicione a taxa de inflação que você quer considerar.
Aparece na tela o valor total que você pode gastar até seu filho(a) fazer 23 anos.
Essa ferramenta foi desenvolvida pelo programador Rodrigo Mello
Este valor, que varia conforme a cidade e o padrão de consumo, engloba educação, saúde, alimentação, vestuário e lazer. Ele cresce junto com a inflação tornando-se fator decisivo no planejamento familiar. O que vemos não é apenas o custo direto da fralda ou da escola. É o custo de oportunidade, tempo que a mãe ou o pai deixam de se dedicar à carreira, e o impacto da desigualdade econômica que exige da família serviços que o Estado deveria prover.
A preocupação é validada pelos dados. Enquanto os salários patinam, o custo de vida nas grandes cidades dispara, e com ele, os pilares da criação: planos de saúde, mensalidades escolares e o preço da alimentação de qualidade.

Em 20 anos, R$ 1 milhão vai valer o equivalente à:
R$ 456 mil, se a inflação for 4% ao ano.
R$ 377 mil, se a inflação for 5% ao ano.
R$ 312 mil, se a inflação for 6% ao ano.
R$ 258 mil, se a inflação for 7% ao ano.
Nos 31 anos do Plano Real, o IPCA anual médio foi de 7,2%.
O salário-mínimo de R$ 1.518,00 cobre apenas uma fração das despesas básicas. Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), o valor mínimo necessário para cobrir as despesas de uma família de quatro pessoas em setembro de 2025 deveria ser de R$ 7.075,83. Isso significa que o valor atual cobre apenas 21% (ou 1/4,71) do ideal. É urgente que políticas de valorização salarial caminhem junto com o controle de preços e o incentivo à formalização.
Os dados são da Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE).

“Comunidades mais pobres sustentarão
o crescimento da população mundial”
Bruno Imaizumi
De fato, o aumento de custo de vida nos últimos anos, alinhado com a maior participação das mulheres no mercado de trabalho, tem dificultado o nascimento de crianças no país. Países e comunidades mais pobres sustentarão o crescimento da população mundial nas próximas décadas e isso é verdade também para o território nacional (Brasil será sustentado por camadas menos abastadas, em suas devidas proporções).
As estimativas de gastos ao longo da vida de uma criança variam de acordo com cidades, classes sociais, etc. O início da vida já demanda investimento considerável, principalmente com fraldas, alimentação e cuidados básicos e mais à frente na adolescência se os pais quiserem investir em educação de qualidade, já que há uma discrepância muito forte de qualidade de ensino público e privado, afirmou Bruno Imaizumi, economista da 4intelligence.
Além dos gastos diretos, há também o impacto indireto: o tempo dedicado ao cuidado infantil ainda recai majoritariamente sobre as mulheres, afetando sua participação no mercado de trabalho, progressão salarial e disponibilidade para jornadas mais longas. Em um contexto em que as mulheres conquistaram mais espaço e autonomia profissional, a maternidade se torna uma escolha que exige renúncias e ajustes significativos. Este é um sintoma de que a decisão de ter filhos é cada vez mais moldada por fatores econômicos, e menos por escolhas individuais, nas classes com maior poder de planejamento financeiro.
O maior impacto no orçamento surge mais adiante, quando os filhos chegam à adolescência. Nesse estágio, a desigualdade aparece de maneira mais dura: optar por um ensino de alto nível faz os gastos aumentarem rapidamente, já que a distância entre rede pública e particular é grande no país, valores elevados para garantir uma formação de qualidade acabam atuando como uma barreira econômica, apertando ainda mais a vida da classe média e ampliando as diferenças de acesso para quem tem renda mais baixa.
No Brasil, a correlação entre a decisão de não ter filhos (ou ter menos) e a pressão econômica é evidente, especialmente nas áreas urbanas. O alto custo e a falta de políticas públicas de apoio à primeira infância (como creches públicas de qualidade e licença parental estendida para ambos os pais) empurram o planejamento familiar para o limite. O país está ficando velho antes de ficar rico. A queda da natalidade por fatores econômicos não é um sinal de planejamento familiar, mas de estresse social. Famílias estão optando por menos filhos para tentar garantir que os poucos que têm recebam o mínimo de qualidade.
Segundo dados da UNFPA (Fundo de Populações das Nações Unidas) referentes a 2021, o Brasil está passando por uma queda acentuada na taxa de fecundidade, que representa o número de filhos por mulher. Enquanto, no final da década de 1960, esse número chegou a ser de seis, hoje ele está em 1,7. Neste quesito, o país inclusive está abaixo da média mundial, que é de 2,4 filhos por mulher.

Como o alto custo de criar filhos muda o perfil demográfico do país
A analista de marketing Marina Duarte, 32 anos, e seu companheiro tomaram uma decisão dolorosa: adiaram a maternidade por tempo indeterminado. Eles ganham um salário considerado bom, mas quando Marina pega a calculadora, a planilha do futuro não fecha.
“Eu e meu companheiro ganhamos relativamente bem, mas a conta simplesmente não fecha. Entre aluguel, saúde e agora os preços de escola, ter um filho exigiria um padrão de vida que não podemos garantir”. Conta Marina.
A decisão de ter filhos tem se tornado cada vez mais difícil para as famílias brasileiras. Com a combinação de estagnação salarial, aumento do custo de vida e gastos crescentes para criar e educar uma criança, o país vive uma queda acentuada na taxa de fecundidade, que hoje já está abaixo do nível de reposição populacional.
Segundo dados do IBGE, a taxa de fecundidade do país passou de cerca de 6 filhos por mulher nas décadas de 1940/50 para 1,53 filhos por mulher, e a tendência é continuar em queda. Projeções apontam que, até 2030, o índice pode chegar a 1,5 filhos por mulher. Esse recuo reflete transformações estruturais: maior urbanização, aumento da escolaridade, inserção das mulheres no mercado de trabalho, mudanças nos valores culturais e, agora, o peso das despesas associadas à criação de filhos. Tal patamar é semelhante ao de países europeus que enfrentam envelhecimento acelerado e redução da força de trabalho. Para a classe média urbana, o impacto é ainda maior pela necessidade de combinar despesas essenciais com um orçamento muitas vezes limitado, afastando principalmente jovens adultos da ideia de ampliar a família.

A consequência é visível: casais decidem ter apenas um filho, adiam a gravidez para após os 30 anos ou simplesmente optam por não ter filhos. Essa tendência já pressiona projeções econômicas e sociais, pois altera a composição etária do país, reduz a população ativa e aumenta a demanda por políticas voltadas à terceira idade, deixando o INSS em maus lençóis. Nos últimos 40 anos, os gastos com previdência e Benefício de Prestação Continuada saltaram de 22% para 56% do orçamento primário do governo federal. Para os próximos 25 anos, enquanto o número de idosos deve dobrar, a população adulta enfrentará um declínio. Reformas periódicas precisam acontecer, como aumento na idade de aposentadoria, no tempo de contribuição e no percentual retido do salário dos trabalhadores. Ainda assim, o valor das aposentadorias não deve acompanhar nem mesmo a inflação real.
Educação e o peso das mensalidades
O dia mal havia amanhecido, mas Luciana Garcia já estava de pé, navegando entre as abas do computador. Não havia barulho, um silêncio que, em breve, seria preenchido pelas queixas de Amanda, sua filha de oito meses. Sargento e planejadora por natureza, Luciana não procurava notícias ou redes sociais. Ela vasculhava planilhas que, há meses, traçavam o futuro financeiro de sua família em torno de um único objetivo: a educação de Amanda.
Para Luciana e o marido, a decisão de ter um filho só veio após atingirem o que chamam de "estabilidade financeira". Eles sabiam que estavam assinando um compromisso de longo prazo, um esforço que, para muitas famílias brasileiras, é a maior e mais duradoura das contas a pagar.
“Um momento que eu considero ideal para ter filhos é depois que os pais tenham alcançado as conquistas pessoais, como estudos, trabalho, viagens. Segurança financeira e psicológica é importante porque é preciso abdicar de muitas coisas para se dedicar a um outro ser”, afirma.
A busca por uma formação de qualidade para os filhos está entre as principais motivações das famílias brasileiras, nos últimos anos, os valores das mensalidades cresceram acima da inflação em diversas capitais. A média nacional de reajuste em 2024 ficou entre 8% e 12%, segundo levantamentos de associações do setor, porcentagem superior ao aumento da renda real da maioria das famílias. Em algumas instituições tradicionais, especialmente em grandes centros como Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo, os valores anuais chegam a ultrapassar R$ 40 mil já no ensino fundamental.
Com o aumento do custo de vida e da inflação, muitas famílias sentem o peso especialmente nas mensalidades. Em capitais e regiões metropolitanas, valores elevados pressionam o orçamento. Isso costuma ser agravado pela busca de atividades extracurriculares e por preparações para o futuro, como cursinhos pré-vestibular e reforço escolar. Muitos pais relatam que essa etapa concentra o maior volume de despesas educacionais, pois disputam não apenas por qualidade, mas também por competitividade no ingresso ao ensino superior.

O desempenho médio é de 466 pontos entre os estudantes mais pobre e de 578 pontos entre os mais ricos. Isso representa uma diferença de 112 pontos, equivalente a 1,44 desvio padrão. Na prática, existe um grande abismo de desempenho entre os extremos de renda e, como mostra o gráfico, as distribuições quase não se sobrepõem. Mesmo que a variação de notas seja maior entre os mais ricos, 83 pontos de desvio padrão, contra 58 pontos entre os mais pobres, ficam evidente que são grupos bastante diferentes em termos da probabilidade de alcançar um desempenho alto. Tese da USP
Para algumas famílias, manter os filhos na rede privada significa rever prioridades, cortar lazer e adiar outros projetos pessoais. Outras migram para escolas mais baratas ou buscam alternativas híbridas, como ensino público complementado por cursos particulares. Ainda assim, somados aos gastos com material didático, transporte, alimentação, uniformes e atividades extras, o custo total da formação escolar, da educação infantil até o ensino médio, pode superar o equivalente a dois salários, ultrapassando facilmente R$ 500 mil por criança na rede privada. Montar um planejamento de longo prazo seria ideal, investir desde o nascimento, poupar mensalmente para a formação e equilibrar gastos pois, como vimos no gráfico, existe um abismo gigante entre os resultados de redes públicas e privadas.
Lazer e consumo infantil

Bernardo tem apenas 2 anos, mas já demonstra um entusiasmo que movimenta, e pressiona, o orçamento da mãe, Bruna da Silva, 39 anos, nutricionista. Fascinado por dinossauros e futebol, ele reconhece personagens, cores e formatos com uma facilidade que surpreende. Em casa, seu dinossauro de pelúcia acompanha todas as atividades, do café da manhã aos jogos na TV.
Nos últimos meses, Bernardo passou a assistir vídeos curtos de brinquedos de dinossauros no celular da mãe. Desde então, aponta para telas quando vê um novo modelo, repete sons e pede aquilo que lhe chama atenção.
"É impressionante como ele reconhece os dinos de marca. Se vê um brinquedo no mercado, ele já aponta e faz o som, como se já conhecesse. Parece automático. Eu quero dar coisas legais para ele, mas às vezes um dinossaurinho de plástico custa R$ 80. Não tem como comprar tudo”, conta.
O universo infantil se transformou em um dos setores mais lucrativos do consumo brasileiro, produtos e serviços voltados às crianças movimenta bilhões de reais todos os anos e cresce acima da média de outros segmentos. Mesmo com o alto custo de criar um filho, muitos pais, especialmente das classes médias, buscam proporcionar experiências, conforto e entretenimento, o que impulsiona uma cadeia de consumo diversificada. Empresas nacionais e internacionais ampliaram linhas exclusivas para o público infantil, com personagens licenciados, coleções e produtos premium.
O setor de festas infantis, por exemplo, virou um fenômeno à parte: buffets personalizados, decoração temática e serviços fotográficos podem custar de R$ 3 mil a R$ 20 mil por evento. No segmento de brinquedos, itens tecnológicos e colecionáveis tornaram-se líderes de venda, acompanhando tendências globais. Já no entretenimento, parques, cinemas, plataformas de streaming, roupas de grife para crianças, brinquedos colecionáveis, serviços de fotografia para aniversários e franquias infantis disputam um público cativo, tornando-se parte do cotidiano de muitas famílias. Esse conjunto de gastos compõe um mercado bilionário, que cresce mesmo diante da crise econômica, sustentado pela demanda de pais que encaram a infância como um período de investimento pesado, não apenas financeiro, mas também de desenvolvimento, status e oportunidades.
O consumismo cria um novo tipo de pressão financeira. As crianças acompanham lançamentos, influenciadores mirins e campanhas publicitárias voltadas especialmente para elas. Com isso, as despesas com lazer e consumo podem facilmente ultrapassar o previsto, tornando o orçamento ainda mais apertado. Isso gera um dilema: equilibrar o que se deseja oferecer aos filhos com a realidade financeira da família e o planejamento de longo prazo.
Estratégias das empresas
A legislação brasileira, apoiada pela resolução nº 163 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA) estabeleceu um marco regulatório rigoroso: qualquer anúncio feito diretamente para crianças é considerado abusivo e, portanto, ilegal. Isso inclui propagandas que usam linguagens infantis, personagens chamativos, cores fortes ou qualquer recurso pensado para influenciar diretamente o público infantil.
Por conta dessas restrições, empresas que vendem produtos e serviços para crianças precisaram reinventar suas estratégias. A saída encontrada foi apostar nos influenciadores digitais, que acabam servindo como ponte entre as marcas e famílias. Hoje, o marketing para esse público funciona basicamente em duas frentes:
1. Influenciadores Parentais: São mães, pais e educadores que mostram suas rotinas, dão dicas e recomendam produtos. Eles são o caminho mais seguro para a publicidade, porque falam diretamente com os adultos, que são quem realmente decide a compra. Nessas recomendações, contam fatores como qualidade, segurança e valores educativos.
2. Influenciadores Infantis: São crianças criadoras de conteúdo, como YouTubers mirins. Quando usados, exigem muito cuidado, focando na experiência e demonstração do produto, nunca em vender diretamente. Além disso, a publicidade deve ser sempre transparente para que os responsáveis identifiquem claramente que existe patrocínio.
Em essência, a estratégia não é mais convencer a criança a pedir o produto, mas conquistar a confiança dos pais. As marcas buscam criar identificação e desejo por meio de conteúdo que dialogue com os valores, rotinas e expectativas das famílias. Linhas dedicadas a públicos mais exigentes, brinquedos premium, colecionáveis, eletrônicos, smart toys que se conectam a sistemas de computação para oferecer uma experiência interativa e educativa, combinando brincadeiras físicas com recursos digitais. A infância, assim, se revolucionou: deixou de ser vista apenas como uma fase de crescimento e educação, e passou a ser um mercado de alto valor comercial, para muitas famílias da classe média, especialmente nas grandes cidades, esse mercado acaba se tornando inevitável, não apenas pela vontade de oferecer o melhor aos filhos, mas pela pressão social e pelas expectativas de que a infância seja vivida de forma completa, com acesso a tudo que o consumo possa oferecer.
Conclusão
Agora você já sabe a resposta para a pergunta quanto custa ter um filho, tal jornada da parentalidade exige muito mais do que afeto. Os números nos mostram um Brasil de extremos. A jornada de ser pai ou mãe é um investimento que varia de R$ 239 mil para quem mal consegue pagar o essencial, até R$ 3,6 milhões para a classe alta. Fica evidente que a conta de criar um filho é, na verdade, um reflexo da desigualdade social. Em última análise, a equação da criação não é apenas sobre o orçamento familiar, mas sim sobre a urgência de políticas públicas que reduzam a desigualdade, permitindo que o sucesso de uma criança dependa menos da renda de seus pais e mais do seu potencial. Mais acesso a oportunidades, independentemente de quanto suas famílias ganham.
Metodologia
Esta reportagem foi elaborada com o objetivo de quantificar, por faixas de renda e classes sociais, o custo total estimado para criar um filho no Brasil, desde o nascimento até a fase de jovem adulto (23 anos).
A metodologia baseia-se na seleção e projeção de dados de instituições econômicas e governamentais, focando na diferenciação dos padrões de consumo e investimento em educação entre as classes.
Fontes de Dados e Base de Cálculo:
IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística): Utilizado para a classificação oficial das classes sociais por faixa de renda, o que permite enquadrar os custos de acordo com o poder aquisitivo da família.
Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE)
Instituto de Pesquisa Econômica Ampliada (IPEA)
Imprensa Especializada e Setorial: Utilização de dados secundários de veículos como Folha de S.Paulo, CNN Brasil e Estadão para referenciar projeções anteriores e contextualizar o impacto dos gastos.
Categorias de Despesas Consideradas
Os cálculos englobam os principais vetores de gasto, cuja proporção varia drasticamente entre as classes sociais:
Educação: O item de maior peso. O custo varia entre a rede pública (Classe D/E) e mensalidades de Ensino Fundamental, Médio e Superior da rede particular (Classes A e B).
Saúde: Plano de saúde e consultas particulares (Classes A, B e C) versus dependência majoritária do SUS (Classes D/E).
Moradia (Custo Indireto): Inclui o impacto da criança nas despesas gerais da casa, como aluguel/financiamento de imóveis maiores, energia e serviços.
Alimentação e Vestuário: Diferenciação entre produtos básicos e itens de marca/luxo.
Lazer e Serviços: Inclui viagens, atividades extracurriculares (idiomas, esport
es), mesada e festas de aniversário, que são determinantes nas Classes A e B.
Análise e Limitações:
A principal variável analisada é o padrão de vida imposto pela classe social. Os gastos milionários nas Classes A e B são impulsionados pelo consumo de serviços privados de alto valor (escolas bilíngues, planos de saúde premium, lazer caro e faculdades de ponta).
Projeção de Longo Prazo: Os valores totais são projeções e não incluem um cálculo exato de inflação anual composto ao longo de 23 anos.
Variação Regional: Os custos são médias nacionais e não refletem a variação do custo de vida em diferentes regiões metropolitanas do Brasil (onde os gastos são notoriamente mais altos).
Eventos Não Programados: O cálculo não inclui eventos atípicos, como doenças graves, intercâmbios caros ou heranças familiares.



Boa matéria! Parabéns!