A seguir cenas dos próximos capítulos...registros do amor por novelas que atravessam gerações como um novelo que nunca se desfaz
- Alunos UVA

- há 2 dias
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Da casa de vó aos memes nas redes sociais, acompanhamos quem assiste junto, quem assiste só e quem escreve novelas e quem pensa e pesquisa as novelas por dentro. Entre memórias, tendências, a reportagem revela como as novelas seguem despertando amor, interesse e identificação costurando gerações com um novelo que nunca se desfaz.
Por Ana Claudia Torraca, Davi Ananias e Guilherme de Souza


Capítulo 1 - O Novelo se Move
Como um novelo que se desenrola devagar, tecendo fios de cheiro, gesto e lembrança, as novelas seguem fortalecendo vínculos em muitas famílias por esse Brasil. No Rio de Janeiro, no bairro de Realengo, o relógio se aproximando de cinco horas da tarde, o sol vai baixando, na casa onde mora há cinquenta anos, Dona Arinda, dona de casa, 79 anos, põe seu café para passar no coador de pano, como fazia sua mãe. O cheirinho do café perfuma toda a casa numa combinação com aroma do sabonete Francis e de Leite de Rosas do pós-banho deixam seu rastro suave dignos de uma avó que dá vontade de abraçar e não sair mais de perto.
Liga a televisão, ajeita cuidadosamente a poltrona de estimação com sua almofada que acomoda a coluna e a estante repleta de fotos de seus filhos e netos, bem como de seus pais, irmãos e do marido que já se foram, mas ainda presentes compõem o cenário diário desse ritual que começa às cinco e só termina depois da novela das nove.
Cada capítulo ecoa nesse espaço como ponto firme num bordado antigo, sustentando um tecido afetivo que se estende pela filha Marceli, bancária, 45 anos, que assiste em sua casa com seu filho Luccas, 22 anos, estudante de nutrição, e telefona diariamente para mãe para comentar. Pelo neto Luccas que acompanha interagindo pelas Redes Sociais com sua namorada, Laysa, estudante de odontologia, 21 anos, noveleira desde sempre, que tem o costume de assistir com sua avó, a dona de casa Anelita, 85 anos.
Álbum de Família
E assim, como pontos alinhados em um bordado, o que começa na tranquilidade dessa sala se estende pelos fios que se conectam à filha, ao neto e à namorada cada um puxando a história de um jeito distinto, mas todos sustentando o mesmo tecido afetivo. No entrelaçar desses fios, a tradição, cheiro de casa, lembrança e a novela se reafirma como novelo que une, e envolve nessa trama diferentes gerações até os dias de hoje.
Capítulo 2 - Onde Mora a Trama
Cada capítulo, cada cena, é parte dessa trama que se tece no ritmo das casas, das ruas, das famílias, dos encontros e que carrega no seu interior o gesto mais antigo do país o de narrar suas histórias enquanto a própria vida acontece.
É nesse entrelaçar de fios, o novelo dá lugar aos pontos que se unem formando um tecido que continua conectando gerações, memórias. Une passado, presente e futuro e telespectadores que vivem, assistem e se emocionam de formas tão diferentes, mas que, ainda assim, permanecem unidos pelo mesmo fio que não se rompe, a paixão pelas novelas.

Capítulo 3 - Quando a novela é a companheira
Poucos bairros do país carregam tanta ficção quanto Copacabana. É ali, diante do mar e do movimento dos turistas, que o Copacabana Palace já serviu de cenário para algumas das cenas mais emblemáticas da teledramaturgia incluindo a morte de Odete Roitman, um dos momentos mais lembrados da história das novelas. A fachada branca, monumental e elegante, tornou-se palco imaginário para histórias que se misturaram à memória afetiva do Brasil.
É desse mesmo bairro que sempre parece pronto para um capítulo novo que vem Lúcia, 60 anos, baterista, artista de alma sensível e telespectadora desde um tempo ainda mais remoto: o da radionovela. Foi na sala da casa de sua infância, com a família reunida ao redor do rádio, que ela aprendeu a esperar pela continuação de uma trama como quem espera um parente querido chegar da rua.

Hoje, décadas depois, ela continua esse ritual no seu apartamento em Copacabana diariamente. Para Lúcia, a novela nunca foi apenas entretenimento: foi companhia constante, ponte com o mundo, espelho de épocas, documento do país em transformação.
“A televisão anda junto com a sociedade”, diz Lúcia, com a convicção de quem viu décadas de mudanças passarem pela tela. “As novelas sugerem debates, provocam reflexões, mas também respondem ao que o público sente. É uma dança entre público e emissora, ninguém muda sozinho. A novela vai abrindo caminho devagar, no ritmo que o país aguenta.”
Músicas de abertura, trilhas sonoras que ela reconhece nos primeiros acordes, interpretações marcantes tudo isso forma um repertório emocional que atravessa sua vida adulta. Quando fala, Lúcia recupera memórias sem esforço: o auge das danceterias dos anos 70, os figurinos de Sonia Braga que inspiraram roupas e gestos, a força de novelas como Malu Mulher, que rompeu silêncios e abriu temas proibidos nas mesas de jantar.
E, claro, lembra a comoção que as novelas provocam:
“Eu choro, eu vibro, eu fico nervosa… me entrego mesmo. A música me pega, a história me pega, o país inteiro vivendo aquele mesmo momento. Isso é muito poderoso.”
A novela, para ela, segue sendo esse lugar onde tudo pode ser discutido, preconceito, moralidade, relações humanas, política, economia, afetos. Para os jovens que não acompanham novelas, Lucia deixa uma mensagem para olharem o folhetim com mais generosidade:
“Saiam da bolha. A novela fala sobre o Brasil real. O que não importa para você importa para muita gente desse país.”
Para Lúcia, assistir novela é participar de uma espécie de ritual coletivo mesmo quando está sozinha na sala, no apartamento que vibra com a lembrança dos tempos das radionovelas.
No fim, ela sorri e diz:
“Eu me emociono todo dia. Acho que vou me emocionar até o final da minha vida.”
As percepções de Lúcia encontram eco na análise de Alessandro Marson, roteirista e autor de novelas da TV Globo, que reforça a ideia de que o gênero sempre acompanhou e continua acompanhando, os movimentos da sociedade brasileira. Para ele, a novela funciona como um organismo vivo, que reage ao público e às transformações sociais, econômicas e tecnológicas.
Marson lembra que as telenovelas historicamente carregam a responsabilidade de dialogar com o país:“A televisão não muda nada sozinha. Ela caminha com a sociedade, sugere, testa limites, mas responde ao que as pessoas sentem.”Segundo ele, quando uma novela provoca resistência do público, a audiência mostra isso de forma imediata e a emissora ajusta o curso. É uma troca constante, quase uma coreografia entre emissor e espectador.
Ele aponta também que o formato tradicional começa a se expandir para outras plataformas e que o futuro pode incluir continuações, spin-offs e universos narrativos mais amplos, seguindo tendências de streaming e do consumo fragmentado.O autor cita o impacto econômico de produções de sucesso, como Vale Tudo e Renascer, e reconhece que a busca por novas formas de narrar pode ser a resposta natural a essas pressões.
A visão de Marson reforça aquilo que Lúcia sente desde a infância:a novela não é apenas um produto da televisão é um espelho ampliado do Brasil.

Salas que foram palcos das primeiras telenovelas, entrem sem bater!
Há salas que não são apenas cômodos são arquivos vivos de histórias. Na poltrona já moldada pelos anos, no tapete gasto, no brilho amarelado da TV analógica, mora um Brasil que aprendeu a sentir o mundo pelas novelas. Para quem deseja revisitar essa memória ou descobrir como era o ritual das gerações que vinham antes o Museu da Imagem e do Som do Paraná recriou uma sala de estar dos anos 80/90, completa com seus cheiros imaginados, suas texturas e seus silêncios.
A experiência transporta o visitante para o mesmo território afetivo onde Lúcia, Dona Arinda e tantas avós acendiam a casa com a luz azulada da novela.
Entre na sala dos anos 80/90:
https://www.mis.pr.gov.br/Noticia/MIS-PR-inaugura-sala-interativa-com-estetica-dos-anos-80-e-90#&gid=1&pid=1
E percorra também a exposição virtual da memória da TV aberta, onde objetos e cenários revelam a história emocional da televisão brasileira:
Capítulo 4 - Cortes, Memes e Viralizações
Convergência digital: como os memes virais levam a Geração Z até as novelasSe antes a novela era descoberta pela TV ligada na sala, hoje ela chega aos jovens pelas telas menores as do celular. Para a redatora e pesquisadora Larissa Martins, do canal e site https://www.youtube.com/@CoisasDeTV, a Geração Z não entra mais na telenovela “pelo capítulo”, mas “pelo corte que viralizou”. “O jovem vê primeiro o meme, a piada, a ironia, o timing. Ele chega à novela por curiosidade, por identificação ou pelo humor. É como se as tramas ganhassem uma segunda vida quando passam pelas mãos desses criadores”, explica.
Entre esses criadores está Gustavo Bianco, cujo conteúdo transformou cenas clássicas em fenômenos digitais. Com edições rápidas, legendas espirituosas e um humor que atravessa timelines, Gustavo cria vídeos que atingem milhares de visualizações alguns ultrapassando a casa do milhão e chegam não só ao público jovem, mas também a perfis institucionais como o Gshow, que já comentou e compartilhou seus posts. Gustavo conversou com a gente e contou seu contato e história com as novelas num áudio repleto de humor.
“Eu comecei a gostar de novela por causa da minha avó, né? Ela parava tudo às seis horas e falava: ‘agora ninguém mexe na TV’. Minha mãe também via, então eu cresci com as duas comentando trama, vilã, mocinha… Aí quando eu vi, já tava eu mesmo, adulto, rindo, chorando e fazendo meme disso. Tudo começou ali, no sofá da minha avó.”

Essa fala de Gustavo revela um padrão que atravessa gerações: o novelo passa mesmo de avó para mãe e, depois, para o neto, exatamente como ocorre na família Lima e em tantos lares brasileiros. Para Larissa Martins, esse elo afetivo explica por que os memes funcionam tão bem: “Os jovens entendem a novela como linguagem quando reconhecem nela algo familiar. Às vezes é o jeito de falar da avó, às vezes é um drama que a mãe comentava. O meme acelera o contato, mas o afeto é o que fixa.”
Nas redes de Gustavo, esse processo se torna visível. Nos comentários, jovens maratonam novelas antigas por causa de uma única cena viral; outros redescobrem personagens que nunca tinham visto, mas passam a acompanhar. E muitos chegam justamente pelo humor: “Eu nem vi essa novela, mas esse meme me convenceu”, escreve um seguidor. O ciclo se repete: os virais aproximam, a curiosidade prende, a novela conquista.
Ao traduzir o universo da teledramaturgia para a estética veloz das redes, Gustavo cumpre um papel que antes era exclusivo da TV aberta: ele reacende conversas, reintroduz personagens, revive clássicos e impulsiona o gênero entre aqueles que, sem o meme certo, talvez nunca apertassem o play.
Larissa Martins, jornalista por formação, cria conteúdo sobre novelas desde 2014.Hoje tem um Canal no YouTube com quase duzentos mil inscritos. (Foto: Reprodução/Internet)
Capítulo 5 - O menino do sofá da avó
O interesse de Matheus Crislli pelas novelas existe “desde que se entende por gente”. Ele cresceu assistindo às tramas com a avó e com a mãe, um hábito familiar que, para ele, atravessa gerações. Essa memória doméstica virou, anos depois, a base do conteúdo que começou a postar em abril de 2025: vídeos despretensiosos comentando novelas no TikTok. “Comecei postando bobeira e foi dando certo”, diz.
Hoje, aos 25 anos, Matheus reúne um público variado, de adolescentes a senhoras, com maioria entre 18 e 21 anos. E, apesar da diversidade etária, ele percebe que os jovens que o seguem “estão sempre por dentro”, mesmo que acompanhem a teledramaturgia principalmente por cortes e trechos nas redes. Para ele, quem cresceu sem o ritual de ver novela com a família tende a não criar esse vínculo depois, mas quem teve esse encontro inicial costuma carregar o interesse adiante.
Comunidade, vínculos e novos laços
As novelas também abriram caminhos de convivência: Matheus fez amigos, criou relações com influenciadores e se aproximou de artistas. “Eu postava muito sobre a Bella Campos em Vale Tudo, e ela me segue, interage comigo.” Ele conversa com Daphne Bozaski, de Três Graças, troca mensagens com Ligia Borges, a Tânia de Dona de Mim, e mantém contato com autores como Rosane Svartman e Manuela Dias. O reconhecimento chegou até da própria Globo, que o convidou para um grupo exclusivo e para eventos, por morar e trabalhar em Mato Grosso, ele nem sempre consiga ir.

Sua novela preferida? Salve Jorge. “Tem seus defeitos, mas é a minha favorita”, ri Matheus, reafirmando algo que define bem seu lugar na teledramaturgia: um fã que virou criador de conteúdo, mas continua guiado pela emoção de quem um dia assistiu às primeiras cenas no sofá da casa da avó.
A trajetória de Matheus marcada pela memória afetiva, pela circulação de trechos nas redes e pela construção de comunidade ajuda a ilustrar um movimento que também aparece na pesquisa de Professor e pesquisador Thiago costa, doutorando em Estudos de Linguagem e integrante do grupo de pesquisas da Universidade Federal Fluminense (UFF). Se Matheus vive, na prática, essa nova forma de acompanhar e comentar novelas, Thiago analisa academicamente como esse comportamento se organiza e se transforma.
Capítulo 6 - O Pesquisador que Desfia o Fio
Para Thiago, a novela permanece um objeto central de interesse acadêmico justamente por ter sido, ao longo de décadas, uma das produções culturais de maior audiência no país capaz de reunir milhões diariamente e criar um vocabulário compartilhado entre gerações. Em suas pesquisas no Laboratório CULTPOP ele observa que as novas formas de consumo não representam desinteresse, mas uma mudança de dinâmica: jovens que não acompanham capítulos inteiros ainda circulam ativamente por cortes, resumos e discussões nas redes. Ele destaca que o papel do pesquisador é compreender esses modos de fruição, considerando tanto a permanência histórica quanto as adaptações contemporâneas. Fora da universidade, Thiago também cria vídeos comentando novelas, aproximando sua produção intelectual do público que hoje vive as tramas de modo fragmentado, ágil e social.


Capítulo Final- Uma História que se Sonha Junto
E talvez por isso a telenovela permaneça sendo o que é: um território comum onde o país se reconhece, discute, deseja e se transforma. Um fio que passa de mão em mão, atravessa gerações e continua a costurar pertencimento, mesmo quando cada espectador assiste em uma tela diferente, em um tempo diferente.
Como disse Janete Clair lembrada por Alessandro Marson com afeto a novela é um sonho que se sonha junto.
E é nesse sonho compartilhado, tecido diariamente nas salas, nos celulares, nos ônibus, nos apartamentos, nas redes e nos silêncios de cada casa, que o Brasil continua encontrando um pouco de si mesmo.
Qualquer semelhança com a sua avó, sua paixão por novelas, seus memes virais seus surtos com vilãs e seus amores por mocinhos... não é mera coincidência. É teledramaturgia. É Brasil.



















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