A Potência do Teatro Musical Autoral Brasileiro
- Alunos UVA

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Longe das grandes marcas internacionais que dominam há décadas a estética mais difundida do gênero, o teatro musical autoral brasileiro cresce em palcos do Rio, São Paulo e outras cidades do país, uma cena que aposta em uma produção completamente nacional.
Por Julia Alves

Para quem frequenta plateias ou vive nos bastidores dos espetáculos, o impacto vai além do entretenimento. É uma experiência emocional e identitária. “Isso é o que é teatro pra mim… tem que investir!”, lembra o espectador Pietro Luz, com a voz emocionada ao recordar a primeira vez em que foi atravessado por um musical brasileiro. “É isso que toca as pessoas. Foi o que me tocou como nada tinha tocado antes.”

O teatro musical nacional é uma potência ainda em ascensão, que cresce a cada dia no coração de quem assiste e vive dessa arte, mas existe uma falta de crescimento do reconhecimento de grande parte da população.
Apesar disso, segue resistindo graças a sua potente história, técnica de produção e principalmente por pessoas que estão dispostas a lutar pelo reconhecimento de uma arte transformadora e com o orgulho de ser completamente nacional, completamente nossa.
A raiz histórica do nosso teatro
Muito antes de se falar em “musical” com a estética da Broadway, o Brasil já criava seu próprio teatro musicado. O pesquisador e mestre em Artes Cênicas Arnaldo Marques contextualiza como a arte do teatro musicado surgiu nacionalmente.
“Quando a gente fala ‘musical’, estamos nos referindo a uma estética norte-americana do show business. Mas no Brasil temos outra tradição: o teatro musicado, que nasce com a opereta.”
Segundo Arnaldo, a opereta, gênero francês que simplificava a ópera para torná-la mais popular, encontrou terreno fértil aqui no século XIX. A música ao vivo, narrativa cantada e dança faziam sentido em um país profundamente atravessado pela mistura cultural e musicalidade como forma de expressão coletiva.
Ao mesmo tempo, Arnaldo aponta um problema histórico que se arrasta até hoje
“A opereta atendia a uma classe mais elitizada. O teatro até hoje vive nesse beco sem saída… ele tenta se popularizar, mas se mantém elitizado. As sessões diminuíram. Parece que ele vem morrendo.”
Mesmo diante da crise que retorna constantemente durante os anos, algo resiste e se reinventa: o teatro musical autoral contemporâneo. No Brasil, cresce uma geração que está ressignificando o fazer e o costume de assistir teatro.

O impacto do teatro musical na vida de quem participa
Elisa Gonçalves, bibliotecária escolar de 29 anos, descreve que o teatro é sua casa desde a infância. Aos 5 anos começou a ir ao teatro, muito por influência de seu pai que começou a trabalhar lá. Desde então, nunca parou.

Elisa relembra com carinho da primeira peça que assistiu e como a arte musical transformou a sua própria história.
“A primeira peça que eu assisti foi um musical brasileiro, chamado Contos e Cantigas Populares Brasileiras. Era um musical que falava as cantigas e contava as histórias que a gente escuta desde pequeno. Eu tenho contato com as nossas histórias desde muito cedo”
Esse contato precoce com narrativas nacionais influenciou e moldou a forma como ela vê a arte. Elisa acredita que seus dias ganham uma nova inspiração através do impacto da arte teatral e musical.
“Música me atravessa muito, então o teatro musical em específico, me move. “
O contato com a arte é difícil de explicar, consegue ser algo muitas vezes abstrato. Possui a capacidade de tocar em cada pessoa de uma forma emocional diferente. Mais tarde, durante sua trajetória em contato com a arte, Elisa encontrou uma metaforização perfeita desse processo.
“Uma vez eu ouvi a Ana Maria Machado falando que a gente precisa ler muito, ter muito contato com arte que em algum momento a gente vai transbordar. E o teatro é assim.”
O país que cria e ganha frutos, mesmo sem holofote
Leonam Moraes é ator e compartilha como a caminhada profissional no meio artístico é difícil. Mas apesar disso, existe algo que o faz permanecer, para além da falta de reconhecimento e investimento na área. O ator conta que após ir para São Paulo fazer uma audição e encarar uma resposta negativa, se juntou com os amigos e foram assistir um musical autoral na cidade.
"Eu tava mal em casa e um amigo meu me chamou para ir. Eu fui totalmente despretensioso assistir, e eu fui completamente arrebatado! Por tudo! Pela música, pelo texto, pela encenação, pela forma de fazer, pelo simples..eu vi o teatro na sua maior essência! Bota um negócio, veste uma coisa e é isso, e acredita!"

Anos mais tarde, Leonam veio a atuar no mesmo espetáculo que o marcou. Esse é um dos fenômenos mais bonitos do teatro musical brasileiro: o ciclo vivo. Quem assiste vira criador. Quem cria volta para assistir. E tudo se alimenta.
O diferencial na arte do teatro musical
A presença é o que torna o teatro musical nacional tão arrebatador. Arthur Berges é ator, músico e dublador, grande nome dos teatros musicais e um amante da arte nacional. O ator destaca a potência do teatro em meio a tantos entretenimentos provenientes dos avanços tecnológicos.
“O teatro ainda é a arte do ao vivo. É arte da presença, a arte do olho no olho. Então eu acho que nada ainda, no mundo, supera essa comunhão, das pessoas estarem ali presentes em corpo, mente e alma, junto com um ator que também está presente em corpo, mente e alma, e ambos ali tendo essa troca”

A produção de um musical autoral
O processo de produção dos musicais autorais exige grande dedicação e persistência. Victoria Ariante, diretora de renomados musicais como "Se Essa Lua Fosse Minha" e "Donatello", ajuda a revelar uma parte que o público nem sempre vê, a construção de sentido para além do texto.
“Eu queria criar um universo para além daquele que já estava escrito. O texto diz coisas, mas e o que não está dito?”

Para ela, o processo de direção é escavar o subtexto, transformar o não-dito em material cênico. Essa postura explica muito do impacto que o teatro musical autoral causa: ele oferece uma camada de sensibilidade que só existe porque os artistas brasileiros trabalham com a liberdade, e com a necessidade, de buscar nas entrelinhas o que é mais humano.
A falta de reconhecimento do cenário nacional
“Tem muito escritor talentoso aí fora. A gente tem uma cultura muito rica. Existe material brasileiro que pode, e deve, ser trabalhado.”
A fala do ator Edmundo Vitor, evidencia uma realidade que atravessa gerações de artistas brasileiros. O talento existe, a criatividade e a qualidade de se contar histórias autorais estão prontas para ganhar os palcos, mas nem sempre encontram o mesmo reconhecimento que produções estrangeiras recebem. Em muitos casos, o público lota teatros para ver versões de grandes títulos internacionais, mas hesita quando se trata de conhecer obras criadas no próprio país, pelos próprios dramaturgos e compositores. Essa disparidade não nasce de falta de qualidade, mas de uma cultura que, historicamente, foi ensinada a valorizar o que vem de fora antes de olhar para dentro

O teatro musical autoral brasileiro enfrenta um conjunto de barreiras que vão da captação de recursos ao acesso a editais, passando pela dificuldade de competir com franquias que chegam prontas, com estrutura, marketing e reconhecimento global. A ausência de políticas culturais consistentes, aliada à falta de incentivo privado, cria um cenário desigual, onde muitos projetos nacionais acabam engavetados antes mesmo de ter a chance de existir. Ainda assim, o movimento de artistas que insistem em criar, mesmo com pouco, mostra a força de uma produção que resiste e se reinventa diante da escassez.
É justamente nessa resistência que nasce a potência do teatro nacional. Quando um espetáculo autoral rompe as barreiras e chega ao público, o impacto é diferente, pois existe identificação, memória, território e afeto. Reconhecer essa riqueza é um passo essencial para que o teatro brasileiro ocupe o espaço que merece. O caminho é longo, mas a arte brasileira continua provando que vale, e muito, ser vista.




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